sexta-feira, junho 03, 2016

Projecto: um livro de auto-prejuízo

A filosofia oriental que valoriza o silêncio e a quietude não tem, para mim, nada de exótico, uma vez que foi nesse ambiente cultural que cresci. Creio que a minha avó era a única budista mahayana de São Martinho de Coura. Na verdade, ela não sabia que era budista mahayana, mas era evidente que partilhava aqueles valores. As frases que mais ouvi na infância foram, sem dúvida nenhuma, “Está sossegado um minuto, por amor de Deus” e “Ó Ricardo, cala-te”. Está ali o amor pelo silêncio e o elogio da quietude com uma intensidade da qual a maior parte dos gurus não é capaz. Mas creio que a razão pela qual a minha avó foi a pessoa mais importante da minha vida é esta: ela era uma espécie de reverso dos modernos livros de auto-ajuda. Em vez de “ama-te”, propunha: “sê impiedoso contigo”. Não com estas palavras, claro. Tinha a terceira classe e não era dada a máximas. Mas foi a dureza dela que me ensinou uma coisa preciosa que, provavelmente, horroriza todos os profissionais da saúde mental: desvalorizar os meus sentimentos. Primeiro, por serem sentimentos; segundo, por serem meus. Primeiro, porque a maior parte dos sentimentos goza de um prestígio que não merece; segundo, porque a minha importância é bastante relativa. Este estratagema emocional afeiçoou-se muito bem ao meu carácter. Fomos feitos um para o outro. Ainda um dia hei-de escrever um elogio do recalcamento, cuja má reputação não compreendo. Não consegui muito na vida, mas devo tudo o que obtive a uma auto-estima baixa. Quem se tem em pouca conta esforça--se mais, desconfia de si mesmo, não perde de vista a sua insignificância. O melhor modo de não sermos ridículos é mantermos presente que somos ridículos.

Normalmente, é nesta altura da conversa que sou acusado de insensibilidade. O que se passa é o contrário, acho eu. Acontece que não sou suficientemente insensível para aceitar os conselhos que costumam vir escritos nos livros de auto- -ajuda. O ensinamento “Acredita e consegues” não me convém porque, infelizmente, a minha vida decorre fora de um filme do Walt Disney. O ditame “Pensa positivo e acontecerão coisas boas” também não se aplica à minha vida porque o mundo que eu habito demonstra todos os dias que se está borrifando para o optimismo dos meus pensamentos. E a ordem “Ama--te” é apenas grotesca. Estou convencido de que isto do amor não se decreta. Desse ponto de vista, as sugestões “Ama o sr. Teixeira da papelaria” e “Ama-te” parecem-me igualmente absurdas. Mesmo que uma pessoa tenha razões para se amar, creio que a boa educação ditaria que procurasse contrariar esse impulso sórdido. Todas as cartas de amor são ridículas, já se sabe. As mais ridículas de todas são as que eu escreveria para mim mesmo, se a minha avó não me tivesse dotado dessa característica tão higiénica, decente e fundamental num mundo civilizado: a vergonha.


Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão


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