quarta-feira, junho 22, 2016

Espelho meu, espelho meu

Por serem tantos (entre jogadores e árbitros passa largamente das duas dezenas o número de artistas em campo), o que o futebol tem de mais bonito são as imensas possibilidades de erros individuais que consentem, frequentemente, às piores equipas vencerem as melhores equipas se o coletivo menos cotado se superiorizar em acerto e empenho ao adversário que lhe é superior no papel e nos 90 minutos. É esta a justiça poética do futebol. Por isso arrasta multidões este espetáculo em que nada é certo e, muito menos, o resultado. 

Desde que não esteja o nosso clube ou a nossa seleção em campo, o desejo maior do espectador comum é ver a equipa mais fraca vencer a mais forte ou, se preferirem, a equipa mais pobrezinha bater a equipa mais rica. 

Este Europeu, desse ponto de vista, não começou da melhor maneira porque na jornada inaugural de cada grupo os mais fortes, com maior ou menor dificuldades, lá se livraram dos seus oponentes indiscutivelmente mais débeis. A França, a Espanha, a Itália e a Alemanha – e serão sempre estes os grandes favoritos ao triunfo na prova - venceram os seus jogos como lhes competia não estragando as respetivas estreias com desperdícios. 

E, assim sendo, o resultado que fez sensação no arranque do Euro 2016 foi o nosso. Ainda que a seleção de Fernando Santos não seja, na realidade, candidata ao título por muito que jogadores, técnicos, opinadores e o público em geral, levados pelo patriotismo da ocasião, proclamem esse estatuto que Portugal nunca teve e que continua a não ter, apesar de ter Cristiano Ronaldo, por muita gente considerado o melhor jogador do mundo e arredores. 

Quando joga pelo Real Madrid, Cristiano Ronaldo discute quem é o melhor do mundo com Messi, o tal que joga pelo Barcelona. Quando joga pela seleção, Cristiano Ronaldo deixa-se dessas discussões sobre quem é o número 1 do planeta e dedica-se exclusivamente a ser o melhor dos "arredores", o que nem sequer é muito difícil. 

O empate pífio da equipa portuguesa com os estreantes islandeses provocou satisfação aos que gostam de ver os mais fracos a atrapalhar os mais fortes e desencadeou uma inevitável onda internacional de comentários anti-Cristiano Ronaldo, o menos modesto dos mortais. 

Oliver Kahn disse-se farto dos "espalhafatos" do português e o selecionador islandês tentou o impossível: dar a Cristiano Ronaldo uma lição de humildade tendo em conta a sobranceria sem medida das palavras do filho da Dona Dolores assim que o árbitro apitou para o fim do jogo de Saint-Étienne. É nisto que estamos. Armados em vaidosos e com um pontinho na sacola. É a justiça poética.


Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha


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