quinta-feira, março 24, 2016

Da amizade

Os que procuram saber mais sobre a natureza da amizade costumam recorrer ao diálogo platónico entre Sócrates, Ctesipo, Hipotales, Lísis e Menexeno. Fazem mal. Deviam estudar o diálogo entre Sócrates, Carlos Santos Silva, Sandra Santos, Maria Célia Tavares e Lígia Correia. Tenho ouvido as escutas judiciais a José Sócrates presumindo com todas as minhas forças a inocência do antigo primeiro-ministro, operação intelectual que levarei a cabo até que sentença indicativa do contrário transite em julgado. Para mim, portanto, vale a versão de José Sócrates: a casa de Paris não é dele, é do amigo Santos Silva, a quem pertencem também os milhões da Suíça. Mantendo presente esta narrativa, podemos concluir das escutas judiciais que Santos Silva é o melhor amigo de Sócrates, que é ao mesmo tempo o pior amigo de Santos Silva e o melhor amigo de Sandra Santos, Maria Célia Tavares e Lígia Correia, que por sua vez são as piores amigas de Sócrates. Há lindos gestos de amizade e feios gestos de falta de educação. Numa das escutas, Santos Silva contacta Sócrates para lhe dizer que a cor que o antigo primeiro-ministro escolheu para o chão é, no entender do empreiteiro, demasiado escura. Muito delicadamente, quase a medo, Santos Silva pergunta se o empreiteiro pode optar por uma cor mais clara. Sócrates, muito aborrecido, responde: “Sim, que faça o que ele quer, mas que faça depressa.” Qualquer outra pessoa, na posição de Sócrates, diria: “Eh pá, ó Carlos, deixa-me agradecer-te novamente. Emprestas-me a casa, deixas-me escolher o pavimento e ainda telefonas a confirmar se a cor pode ser alterada. Estou sem palavras. Como é que eu hei-de retribuir tudo isto, pá? Posso oferecer-te o meu livro? Ah, espera, já compraste 15 mil exemplares. És mesmo um bom amigo.” Não é o que faz Sócrates. Está irritado porque o amigo não se despacha a emprestar-lhe a casa. É um daqueles amigos abusadores que temos de empurrar para fora de casa depois do jantar, quando já são quatro da manhã. Com este diálogo aprendemos ainda uma outra lição que Platão nunca foi capaz de ensinar: que os empreiteiros aldrabam nos prazos de conclusão das obras em todas as latitudes. No entanto, quando fala ao juiz deste péssimo amigo, Santos Silva diz: “Portanto, digamos que o eng. José Sócrates está, portanto, digamos, entre os meus, portanto, digamos, dez melhores, portanto, digamos, amigos.”

Por outro lado, Sócrates, que é um amigo abusador, tem vários amigos abusadores – o que acaba por ser justo. Sandra Santos, Maria Célia Tavares e Lígia Correia pedem--lhe empréstimos que não tencionam pagar com uma descontracção igualmente perturbadora. Na verdade, também abusam de Santos Silva, mas por interposto Sócrates. É um esquema de Ponzi de amizade.

A única pessoa que destrata Sócrates é o seu próprio filho. Telefona-lhe para dizer que está farto de viver num hotel e exige que o pai o instale na casa de Santos Silva, que nunca mais fica pronta. O filho de José Sócrates é o José Sócrates de José Sócrates: exige, com maus modos, usufruir de coisas que não lhe pertencem. Exactamente como Sócrates faz com Santos Silva. É como diz o povo: quem sai aos seus…



Fonte : Ricardo Araújo Pereira @ Visão


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