sexta-feira, março 18, 2016

Assim como nós não perdoamos a quem nos tem ofendido

Depois de uma série de mal-entendidos provocados pelo facto de certas palavras terem vários significados, o rato diz: “Insultas-me com esses disparates todos!” E Alice responde: “Não fiz de propósito! Mas tu ofendes-te tão facilmente…” A conversa decorre no país das maravilhas, mas podia decorrer hoje em Portugal. Num curto espaço de tempo, várias pessoas ofenderam-se com uma música do rapper C4 Pedro, com um cartaz do Bloco de Esquerda e com um livro de Henrique Raposo, cronista do Expresso. Uma pessoa que se tenha ofendido com os três merecia, na minha opinião, ganhar um trem de cozinha. Quem não se deixou ofender por música, desenhos ou palavras devia verificar se possui sistema nervoso central. No século XXI, parece que ser resistente a ofensas não é normal.

Basicamente, há três grandes perspectivas sobre a liberdade de expressão: há as pessoas que são contra, as pessoas que são a favor, e as pessoas que são a favor desde que a liberdade de expressão sirva apenas para que os outros possam dizer coisas que não ofendam ninguém. Eu pertenço ao segundo grupo, com mais duas ou três pessoas. A maior parte da sociedade, sobretudo aquela parte da sociedade que se manifesta na internet, pertence ao último grupo. Não me custa admitir que essas são as pessoas que mais amam a liberdade de expressão. Para eles, a liberdade de expressão é tão preciosa que deve ser usada com parcimónia, para não estragar. É tão importante que não deve cair nas mãos de qualquer badameco. E é tão nobre que até lhe ficaria mal proteger qualquer discurso.

Que as pessoas se ofendam é bastante natural. Que pretendam calar quem as ofende talvez também seja natural mas, felizmente, é ilegal. No entanto, é possível. A música de C4 Pedro ofendia mulheres. Por isso, houve um movimento para que o rapper se calasse (e ele retirou o videoclip). O cartaz do Bloco ofendia crentes. Por isso, pediu-se uma punição. Francisco Ferreira da Silva, cronista do Diário Económico, escreveu um artigo dirigido a Catarina Martins intitulado “Obviamente, demita-se!”, sugerindo que esse seria o castigo adequado “a menos que Portugal se tenha transformado num Estado onde se é inimputável pelas baboseiras”. (Dizer baboseiras impunemente é capaz de ser das melhores definições de liberdade de expressão que conheço.) O livro de Henrique Raposo ofendia alentejanos. Por isso, recebeu ameaças e foi obrigado a mudar o local do lançamento. Todos aprenderam uma lição: liberdade de expressão, sim – mas sem ofender. Pessoalmente, gosto da minha liberdade de expressão sem mas. É liberdade de expressão sem mas, e café sem açúcar. Realmente, não fica tão docinho, mas não estraga o verdadeiro sabor.


Fonte: Ricardo Araujo Pereira @ Visão

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