sexta-feira, setembro 11, 2015

Uma gravidade folgazona

A festa que o PS organizou em Santo Tirso, para assinalar a abertura do ano político, merece a atenção de quem gosta de política, mas sobretudo de quem gosta de festas. Os apreciadores de folguedo conhecem bem vários modelos de festividade. A festa da espuma, a festa da cerveja ou a festa do champanhe são alguns exemplos de pândegas bem divertidas. Ora, a festa do PS chamava-se "Festa da Confiança". Digamos que não entusiasma. A introdução de um valor político no nome da festa parece retirar um pouco de alegria ao festejo. Do mesmo modo, uma hipotética "Festa da Idoneidade", ou uma "Festa da Repartição Mais Equitativa da Riqueza" acabariam igualmente por frustrar o objectivo da recreação. Eu percebo o pensamento que orienta a realização de uma "Festa da Confiança", sobretudo porque é o mesmo que me faz inventar jogos muito giros para levar as minhas filhas a fazerem o que eu quero. Destaco o "Jogo de Ver Quem Aguenta Mais Tempo Calado e Quieto", ou o "Super-Desafio Para Apurar Quem É o Maior a Ingerir Verduras". São brincadeiras que, na aparência, prometem folgança, mas que todos sabemos não passarem de estratagemas para impingir brócolos ou obter cinco minutos de sossego. Certos padres recorrem a ardis semelhantes quando falam aos seus jovens paroquianos naquilo que eles acreditam ser a linguagem da juventude e dizem: "Ei, malta da pesada, sabeis o que é extremamente fixe? A abstinência." A "Festa da Confiança" é um fruto desta mesma árvore.

Depois da "Festa da Confiança", António Costa resolveu introduzir na campanha outra festa triste: o matrimónio. Na página de facebook da campanha foi publicada uma fotografia de um jovem António Costa, abraçando a mulher com um gesto que se encontra naquele sítio onde a ternura faz fronteira com a intenção de praticar um sequestro. O texto que acompanha ?a foto diz: "António Costa e Fernanda ?Tadeu casaram há 28 anos. Não houve festa mas sim um hambúrguer rápido no Abracadabra na Rua do Ouro (...)." Um candidato a primeiro-ministro sente necessidade de dizer que não houve festa quando casou. Concede que comeu um hambúrguer, sim, mas rápido. Suponho que tivesse sido inadmissível saboreá-lo lentamente. Obtendo até disso - valha-me Deus! - algum prazer. António Costa não tem tempo para festas. A não ser que sejam festas ajuizadas, como a da confiança. ? A alternativa à austeridade é um homem austero.

Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão


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