domingo, agosto 09, 2015

Nunca tinham desconfiado

Empatia não é simpatia. Simpatia, enfim, toda a gente sabe o que é. Ainda esta semana, por exemplo, foi extraordinariamente simpático o presidente da Federação Portuguesa de Futebol quando, no lançamento da decisão desta Supertaça, afirmou ser o dérbi de Lisboa 'o jogo dos jogos'. Ser-se simpático é isto mesmo. Na sua condição de organizador e anfitrião do acontecimento, Fernando Gomes tratou os dois contendores com a mesma amabilidade institucional e com a devida consideração histórica. É bastante provável, no entanto, que no Porto esta simpatia do presidente da Federação, um trânsfuga do pior, seja considerada uma enorme falta de respeito para com o brasão não domiciliado na Segunda Circular dos lisboetas. Não se pode agradar a toda a gente por mais simpático que se seja. E ainda bem.

Empatia é outra coisa. Manifesta-se de modo silencioso porque envolve solidariedades afectivas e a capacidade de nos pormos no lugar do outro. Empatia, portanto, era o que estava a tardar nestes primeiros passos da relação entre o treinador do Benfica e os adeptos do Benfica. Nada mais natural, aliás. Rui Vitória acabou de chegar e estas lindas afinidades não nascem de um dia para o outro. Constroem-se. Por notória falta de tempo e também por falta de resultados fabulosos na pré-temporada, para mais nas vésperas de um "jogo dos jogos", começava a ser uma contrariedade a ausência de empatia entre adeptos e o novo treinador.

Felizmente que o problema já está resolvido. Devemo-lo a Jorge Jesus, que prestou mais um inestimável serviço ao Benfica - a somar ao bonito número de títulos conseguidos em meia dúzia de anos - quando disse que a única novidade da equipa de Rui Vitória é que 'o cérebro não está lá'. Parem as rotativas! Era mesmo uma coisa destas, insultuosa e descabelada, que o Benfica precisava para se congregar afectuosamente em torno do seu novo treinador. É que nem de encomenda qualquer outro 'produto' do mais avançado 'marketing' resultaria tão bem. E é assim, subitamente unido, que o Benfica avança amanhã para a decisão da Supertaça. No mais ideal dos estados de alma que, não garantindo de modo algum a vitória, garante para já um outro espectáculo de imenso impacto social: a descoberta pelos benfiquistas de que o seu ex-treinador, afinal, tem um ego maior do que o Taj Mahal, coisa de que nunca na vida tinham desconfiado."

Fonte: Leonor Pinhão @ Record

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