sexta-feira, junho 19, 2015

A barreira da língua

A fé é tudo no futebol. Se não houver fé no futebol nem um bilhete se vende nas bilheteiras dos estádios.

Até ao final da tarde de segunda-feira, quando foi publicamente apresentado o novo treinador do Benfica, Rui Vitória era a primeira escolha de Luís Filipe Vieira mas creio que não era a primeira escolha da larga maioria dos adeptos do Benfica.
Assim que foi apresentado, Rui Vitória passou a ser a primeira escolha da larga maioria dos adeptos do Benfica porque o que tem de ser tem muita força.
«A partir do momento em que é treinador do meu clube passa logo a ser o melhor treinador do mundo» - é esta a liturgia que, de um modo geral, toda a gente de índole disciplinada segue quando surge um novo treinador com quem não se contava.
E há um mês ninguém contava que o Benfica fosse mudar de treinador. Ao Rui Vitória aproveitamos já para desejar, no mínimo, seis anos no posto.
Como o anterior treinador esteve seis anos no posto não é de um momento para o outro que uma pessoa se sintoniza com o novo treinador - estas coisas levam o seu tempo. Eu, por exemplo, tive grande dificuldade em perceber os primeiros minutos do discurso de Rui Vitória na tarde da sua apresentação. Era a primeira vez que falava para nós. E tudo aquilo que dizia soava-me arrevesado, a estrangeiro, a uma língua esquisita que abusava de concordâncias com grande desfaçatez.
Houve mais gente nossa a queixar-se do mesmo.
Depois, com o andar da conversa, os nossos ouvidos foram-se habituando devagarinho ao falar de Rui Vitória e, por fim, já todos compreendíamos quase tudo do que nos queria comunicar quando chegou ao fim da sua alocução.
Mas quase tudo não é tudo. Se, no entanto, no próximo dia 9 de Agosto o Benfica conquistar a Supertaça ficará logo ultrapassada a barreira da língua entreposta, pela força de um hábito antigo, entre o novo treinador do Benfica e os adeptos.
É com isso que todos contamos. E Rui Vitória também.


Foi bem mais agradável de se ver a exibição das segundas linhas da Selecção contra a Itália do que a exibiçãozinha das primeiras linhas da Selecção com a Arménia.
No jogo com a Arménia a Selecção limitou-se a cumprir com aquilo que se lhe pedia: uma vitória. No jogo com a Itália, um adversário historicamente intratável, fez bastante mais do que lhe era exigido. Acabou mesmo por ganhar o jogo por uma goleada de 1-0. Tendo em conta a arte italiana de resguardar a sua baliza ganhar por l-0 à Itália é sempre uma goleada. Estão todos de parabéns.


Este ano não vai haver Taça da Honra. O simpático e intermitente troféu de abertura de época organizado pela Associação de Futebol de Lisboa foi suspenso do calendário por falta de quórum, chamemos-lhe assim. Regressará em 2016, isto se o Benfica não se resolver, novamente, a ter outras ideias para a sua pré-temporada.
Uma choruda digressão do Benfica pelo continente americano no próximo mês de Julho retirou o emblema dos campeões nacionais do programa da Taça de Honra e, sem Benfica, a AFL decidiu que a prova não fazia sentido.
A homenagem é grande ao Benfica mas é pequena à Taça de Honra que, por este caminho, nunca mais alcança o estatuto de competição mini-clássica mas, ainda assim, muitíssimo estimável do futebol lisboeta. 
Poderia a Associação de Futebol de Lisboa ter pensado em organizar, neste Julho de 2015, um triangular envolvendo Sporting, Belenenses e Estoril no lugar do quadrangular que se realiza com o elenco completo. Mas assim não vai acontecer. Não há Benfica, não há nada para ninguém.

A propósito da derrota na final do campeonato de futsal, o presidente do Sporting atirou-se aos árbitros em geral e exigiu um apocalipse de Estado sobre todas as modalidades desportivas que se praticam em Portugal. «Não admitimos mais desrespeitos», correu a escrever no Facebook.
O presidente do Porto, por sua vez, entendeu proclamar que dispensaria de bom grado o seu treinador, qualquer treinador, se confiasse no desempenho dos fiscais-de-linha ao longo da temporada futebolística. 
Mas isto alguma vez foi maneira de ganhar campeonatos?
Imagine-se o estado de choque em que ficou, depois de ouvir Pinto da Costa falar sobre fiscais-de-linha, aquele mesmo fiscal-de-linha da Luz que, validando o golo irregular do Maicon ao cair do pano, acabou por oferecer o campeonato de 2012 ao Porto.
O futebol está todo de férias, menos na parte que mete apitos.


Teve mais arte a colocação da fotografia de Jorge Jesus no alegre painel da equipa bicampeã nacional em exposição na loja do Estádio da Luz do que a sua remoção às mãos de um zelota anónimo magoado com os acontecimentos.
O episódio já tem umas semanas, eu sei, mas até pareceria mal não dizer nada sobre esta inusitada prática negacionista no historial do Benfica tendo em conta que até uma fotografia de João Vale Azevedo continua, e sem constrangimentos, à vista de todos no Museu do clube por uma questão de decência.
É no sentido da criatividade que digo que teve mais arte quem se lembrou de colocar a imagem de Jesus numa vitrina na Luz celebrando com os jogadores o título de campeão quando, se bem se lembram, foram comedidíssimos os festejos do então treinador do Benfica, sempre sisudo e sozinho, fazendo até adivinhar, a quem se entretém a decifrar expressões, o que aí vinha...
Em função da materialidade dos eventos foi, portanto, um abuso colocar a imagem de Jesus à força numa festa a que mal compareceu. Tirá-lo do grupo foi ainda pior.


Voltando ao treinador do grande Benfica. Rui Vitória disse muitas coisas que os benfiquistas gostaram de ouvir. Não lhe deve ser difícil porque sendo ele também benfiquista sabe do que a casa gasta e sabe, sobretudo, do que a casa gosta. 
No dia da sua apresentação, deixou expressa a vontade de «fazer mais na Champions do que foi feito no passado». E quem é que não aprecia uma coisa destas?
Os adeptos tiveram oportunidade de voltar a rejubilar quando o treinador do Benfica se afirmou disposto a «apostar em cinco, seis ou sete jovens jogadores» para atacar a época de 2015/2016. A juventude é outro tema sensível na Luz, como bem sabemos.
No seu todo, a cerimónia de apresentação de Rui Vitória decorreu com decoro e dignidade em ambiente de fé no futuro. A fé é tudo no futebol. Se não houver fé no futebol nem um bilhete se vende nas bilheteiras dos estádios.
Luís Filipe Vieira pediu publicamente o tri a Rui Vitória. E eu acredito que sim, que o Benfica pode voltar a ser campeão.
Quanto à promessa do treinador de «fazer mais» na Champions com «cinco, seis ou sete jovens jogadores», francamente, já me parece bastante mais difícil de chegar lá.


Com a vitória no campeonato de futsal terminou em inaudita beleza a temporada das modalidades em que o Benfica, andebol à parte, esteve ao seu melhor nível que é aquele de ganhar tudo o que surja pela frente. 
O jogo que se veio a revelar decisivo do campeonato de futsal foi na casa do Sporting que chegou aos 2-0 de vantagem perto do fim da primeira parte. Odivelas foi ao rubro, naturalmente.
Com o entusiasmo do momento rebentaram-se umas bombas de fumo que deixaram «o ar irrespirável» no pavilhão provocando «grandes dificuldades aos jogadores», segundo concluíram os comentadores da RTP, estação que transmitiu o jogo em directo.
Por ser um clube de origem popular, com pulmões proletários mais resistentes à fuligem e às alterosas fornalhas, o Benfica deu-se melhor com a fumarada do que o adversário e foi num ambiente tão favorável quanto espesso que reduziu para 2-1 dando início à reviravolta.
A decisão do jogo e do título teve de esperar, no entanto, pelos penalties e acabou por sorrir ao Benfica. O Sporting ficou muito zangado com o árbitro que mandou repetir por duas vezes os penalties do Benfica visto que o guarda-redes do Sporting estava francamente adiantado em relação à linha de baliza. O que não é permitido no futsal.
No futebol também não é permitido o guarda-redes adiantar-se no momento do penalty.
Com um árbitro destes tínhamos ganho a final da Liga Europa ao Sevilha e a Beto. Também teria sido mais do que merecida essa vitória."


Fonte: Leonor Pinhão @ A Bola

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