quinta-feira, maio 28, 2015

Precisa-se: arguido

Marco António Costa, vice-presidente do PSD, está a ser investigado pelo Departamento de Investigação e Acção Penal do Porto. Espero, sinceramente, que seja inocente. Depois do encarceramento de um Sócrates, não sei se Portugal aguentaria a prisão de um Marco António. Uma coisa é sermos um país de gente corrupta, outra coisa é sermos uma revista à portuguesa passada na antiguidade clássica. A ignomínia aguenta-se melhor que o ridículo. Por sorte não existem, na política portuguesa, Anaximandros nem Dioclecianos, pelo que, em princípio, bastará manter Marco António fora da cadeia para evitar um enxovalho embaraçoso.

Admito que faz falta um bom arguido do PSD para equilibrar as contas com o PS. Os socialistas têm Armando Vara, um ex-ministro, a aguardar recurso de uma condenação a cinco anos de prisão; os sociais-democratas têm Duarte Lima, um antigo presidente do grupo parlamentar, a aguardar recurso de uma condenação a 10 anos de prisão. Fica quase ela por ela. Mas agora os socialistas têm um ex-primeiro--ministro preso, a aguardar acusação, e os sociais-democratas têm todas as suas grandes figuras em liberdade - o que se lamenta e estranha. Não contabilizo aqui, até por razões de espaço, outros dirigentes políticos, de ambos os partidos, sobre os quais recaem suspeitas de crimes de vários tipos. Desejo dedicar-me apenas à Liga dos Campeões dos sarilhos jurídicos, onde o PS se encontra em vantagem, com dois elementos proeminentes contra apenas um do PSD. Esta questão é muito importante porque, não havendo equilíbrio no número de potenciais trafulhas, a campanha eleitoral irá centrar-se no problema acessório de saber qual dos partidos tem mais bandidos, em lugar de servir para discutir vários outros problemas acessórios. Tendo apenas um tema acessório para debater, os partidos correm o risco de ficar sem assunto antes do fim da campanha, e podem ver-se forçados a debater as questões essenciais, embora ninguém saiba exactamente quais são. Mas, nestas coisas, é melhor não arriscar.

Se o filho de uma pessoa for preso por homicídio, o seu vizinho passa a poder gabar o seu próprio filho, que apenas furta auto-rádios. A detenção de José Sócrates teve um impacto tão grande na vida política que Passos Coelho sentiu que até podia elogiar Dias Loureiro numa queijaria. ?Ou se encarcera um alto dignitário do PSD depressa, ou nos arriscamos a ver Valentim Loureiro receber um doutoramento honoris causa.


Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visao

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