sábado, abril 25, 2015

Crítica de cinema

Neste momento, o filme mais visto do ano, em Portugal, é Velocidade Furiosa 7. Acaba por ser uma homenagem póstuma bastante terna do povo português ao mestre Manoel de Oliveira, cuja ideia de cinema era permeada pela velocidade furiosa enquanto valor estético fundamental. ?A segunda película mais vista do ano é As 50 sombras de Grey, o que faz sentido: um filme é sobre sinistralidade rodoviária e outro é sobre violência doméstica - dois temas centrais na actualidade portuguesa. Confesso que não vi nenhum dos filmes, na medida em que aprecio condução segura e sexo, digamos, gandhiano. Sou pela não-violência no leito. Rejeito tudo o que vá além daquelas tradicionais formas de ternura bruta, produto do entusiasmo, a saber: a palmada firme mas suave e o apertão ameno. Gostaria, aliás, de aproveitar este espaço para lamentar que as pessoas que repudiam o tipo de sexualidade que se pratica em As 50 Sombras de Grey sejam com frequência reputadas de enfadonhas e pouco modernas. Levar uma bolachada parece-me claramente nocivo para a lubricidade não só porque se assemelha menos a uma manifestação de regozijo e mais a um castigo por um trabalho mal feito, mas também porque me transmite a sensação inquietante de estar na cama com Trinitá, o caubói insolente. Creio que a vontade de imitar as práticas publicitadas no filme configura mesmo um caso de novo-riquismo sexual. Por causa destas objecções ideológicas, prefiro debater ambas as películas sem proceder ao seu visionamento - que, na maior parte dos casos, só atrapalha.
O aspecto mais saliente da série Velocidade Furiosa - ao menos para quem, como eu, só assistiu aos trailers - é que não só é difícil distinguir os filmes entre si como é difícil distingui-los do grande prémio de Silverstone. ?Os actores praticam um estilo de condução extremamente ousado, excepto na estrada nacional 1, onde se considera que este modo de conduzir é próprio de choninhas que não andam nem deixam andar.

Quanto a As 50 Sombras de Grey, creio que se trata de um filme bastante irrealista, uma vez que um jovem milionário com aquele aspecto não se relaciona com uma rapariga daquelas. Relaciona-se com 17 raparigas daquelas.

Deve registar-se, no entanto, que Hollywood parece estar a produzir cinema baseado nos temas da sociedade portuguesa, pelo que devem esperar-se para breve películas sobre incêndios florestais e greves nos transportes. Cá estaremos para apreciar, com toda a atenção, os trailers


Fonte: Ricardo Araujo Pereira@Visão

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