domingo, março 02, 2014

Os precipitados gatos-pingados do regime

Entenderam todos que os sinais dados por Pinto da Costa à saída do estádio são de decadência. Fatal engano. Não são de queda. São antes, e em flagrante, os velhos sinais da ascensão do regime.

DE Samora Machel, que foi líder da resistência moçambicana ao colonialismo português e, mais tarde, presidente da jovem república africana, conta-se que, numa conversa com jornalistas ocidentais, a uma paternalista questão ideológica com que insistentemente o confrontavam, «quando é que leu Marx pela primeira vez?», a todos respondeu de sorriso aberto com um desconcertante: «eu nunca li Mark pela primeira vez».
Leonor Pinhão
Quando Eusébio morreu, no princípio do ano, perguntaram-me algumas pessoas, com aquela naturalidade advinda da circunstância, se me lembrava da primeira vez que tinha visto jogar o melhor jogador português de todos os tempos, no seu tempo.
Na verdade, não me lembro. Nunca vi jogar Eusébio pela primeira vez.
A culpa é do Coluna. E do meu avô também. Foi ele quem me levou pela primeira vez ao Estádio da Luz. É agora importante dizer que o meu avô quando alguém referia, ou ele próprio mencionava, o nome de Coluna, logo se punha em sentido como nunca o vi fazer, nem parecido, perante o nome de mais ninguém.
E tratava-se, o meu avô, de um homem que viveu interessadamente e tomando partido o tempo da monarquia, do regicídio, da I República, do Estado Novo e da II República (chamo-lhe assim, II República, para não me acusarem de meter fruta em tudo). Com tanto príncipe, rei, pedreiro-livre, caudilho, presidente do concelho, autoridade eclesiástica e militar, ministros a rodos, comissários, etc... etc... que conheceu, pois só vi o meu avô pôr-se em sentido quando soava o colossalmente melodioso nome de Mário Esteves Coluna.
Foi assim que entrou na minha vida o monstro sagrado.
Portanto, quando fui pela primeira vez ao Estádio da Luz foi para ver jogar o Coluna e não foi para ver jogar Eusébio. Se jogou, juro que não me lembro. Ainda não o tinha decorado.
Lembro-me, e bem, do lugar no estádio em que me sentei, da bonita tarde com um sol criador que, no seu ocaso, fazia tombar sobre o relvado as sombras monumentais das torres de iluminação. E só isso era um espectáculo arrebatador.
Lembro-me também do meu avô a ralhar com um homem porque o viu atirar ao chão o invólucro de um rebuçado. «O senhor faz isso em sua casa?» Imagine-se, portanto, o género de exigências do meu avô.
«Fica Coluna», disse-me assim que o jogo, que era com o Belenenses, começou. E eu fixei. Por isso lembro-me muito bem da primeira vez que o vi jogar. Lembro-o possante numa corrida desenfreada sobre a direita, num ombro-a-ombro com um jogador de azul que não demorou a ficar para trás.
Tinha 9 anos e foi isto o que guardei da primeira ida à Luz.
O Coluna, o meu avô, as sombras das torres caindo sobre o relvado, o homem que atirou para o chão o papellito do rebuçado e eu. Saí de lá encantada com tudo. E assim me mantenho.

NA segunda-feira à noite, na Luz, foi bem mais empolgante o resultado do que a exibição. E o resultado foi um tangencial 1-0 não muito especialmente sofrido, valha a verdade. A exibição foi na linha das anteriores. Isto é, segura sem deslumbrar. Este ano temos um Benfica à italiana. Eu gosto.
Do Benfica do passado recente, com um futebol a oscilar entre o mirabolante e o desguarnecido, entre a nota artística e o chumbo final, saiu, finalmente, um Benfica mais esperto. Pois que assim se mantenha, esperto e desperto.
Querem notas artísticas? Nesta temporada é uma nota artística por jogo e basta.
Foi que aconteceu com o Guimarães. O teenager Markovic  encarregou-se de fazer o seu número e em poucos segundos o jogo ficou resolvido. Antes e depois foi o costume, o costume recente. Um Benfica sem dúvida mais crescido mas frequentemente complacente com as situações do jogo.
Se forem com esta complacência toda jogar ao Restelo, no domingo temos o caldo entornado. Adivinha-se uma casa cheia em Belém. O Benfica não é a alegria das secretarias da Liga mas é, sem dúvida, a alegria das tesouraria dos clubes da Liga.

A semana foi repleta de acontecimentos invulgares. E, de um modo geral, os analistas e comentadores chegaram todos às mesmíssimas conclusões.
O Sporting reforçou a sua candidatura ao título e o FC Porto abdicou de candidatura ao título - foi a primeira conclusão da semana.
As imagens da SAD portista, com Pinto da Costa à cabeça das hostes, no túnel do Dragão fazem prova do fim de um regime - foi a segunda conclusão da semana.
Precipitaram-se, na minha opinião, os analistas.
É certo que o desaire com o Estoril promoveu uma troca de lugares no topo da tabela. O Sporting subiu para o segundo posto e o FC Porto desceu para o terceiro posto. Mas como pode ser o Sporting (em festa) mais candidato do que o FC Porto destroçado) quando ainda faltam tantas jornadas e sendo a distância que os separa do líder quase igual?
E sabendo-se que o actual líder se especializou nas duas anteriores edições da prova em desperdiçar infantilmente vantagens de monta.
Por que razão, política ou administrativa, são intransponíveis os 7 pontos de atraso do FC Porto para o Benfica e são transponíveis os 6 pontos que separam o Sporting do Benfica? E são 6 pontos visto que o Benfica e Sporting já jogaram duas vezes e em caso de igualdade pontual última jornada o desempate favorece os da Luz que empataram em Alvalade e ganharam na recepção ao rival.

NO que diz respeito à disparatada conclusão quase unânime de que está para cair o status quo que fez furor nas últimas três décadas do futebol português, manifesto também o meu profundo desacordo com os precipitados gatos-pingados do referido regime.
Entenderam todos, vá lá saber-se porquê, que os sinais dados por Pinto da Costa e companhia à saída do estádio são de inexorável decadência. Fatal engano. Os sinais não são de queda.
São antes, e em flagrante, os sinais da ascensão do regime:
A desautorização da autoridade, a passividade encolhida da dita autoridade no momento do safanão, o confronto belicoso com o repórter que se atreveu a colocar uma questão obrigatória podem, como é da tradição, não merecer qualquer tipo de reparo quer do Ministério da Administração Interna quer do Sindicato dos Jornalistas, mas não podem , de maneira nenhuma, fazer prova da decadência quando são prova da velha e consabida origem e ascensão.
Em que difere a tirada «os ratos é que abandonam o navio» proferida por Pinto da Costa na recentíssima noite de 23 de Fevereiro de 2014 da tirada «os ratos fogem a sete pés» proferida por Pinto da Costa a 25 de Março de 1982 no preciso momento em que viu consubstanciada a sua vitória política e administrativa sobre Américo de Sá, o presidente deposto à má-fila?
Ratos, sempre ratos.
Poderão replicar-me dizendo que nos velhos tempos do regime jamais seria permitida a presença de câmaras à saída do túnel do Dragão. Mas coisas dessas já não são possíveis. Mudaram-se os tempos e hoje, se as câmaras de televisão forem barradas, cada cidadão tem a sua câmara no bolso agregada ao telemóvel e pode, a qualquer momento, fazer despertar o repórter que há em si.
Poderão também contrariar-me dizendo que nos velhos tempos do regime seria impossível assistimos aos continuados desabafos públicos de atletas do FC Porto desagradados com a respectivas situações. Mas nesses admiráveis tempos não havia Facebook nem as demais redes sociais que vieram dispensar a bafienta utilidade dos intermediários oficiais e oficiosos.
Desenganem-se, portanto, os que acreditam na decadência do regime só porque viram um  polícia e um jornalista a ser praxados. O regime está igualzinho ao que sempre foi desde o primeiro dia. E com os mesmíssimos tiques e com a mesma retórica. O mundo é que mudou.

JARDEL foi a figura do jogo do Benfica com o Vitória de Guimarães.
É verdade que houve Markovic ao nível de um predestinado na primeira parte, é verdade que houve Oblak imbatível o jogo todo e chamado a serviço porque o Vitória não levou o autocarro para o relvado, é também verdade de que houve Luisão a cumprir o seu compromisso número 400 pelo Benfica com uma exibição categórica.
É verdade tudo isto mas Jardel, honra lhe seja feita, foi o homem do jogo porque uma figuraça daquelas, de cabeça entrapada até ao intervalo e, depois, por toda a segunda parte, usando como protecção um notável elmo de borracha e adesivos, inspirado no figurino do primeiro rei de Portugal, tem de ser forçosamente a figura da noite.
O adereço medieval transfigurou-o. Entrou no personagem régio e chegou para tudo e para todos. Uma limpeza. Fez esquecer Garay, é verdade.
No entanto, seria bom não vender Garay até ao final do mês para a Rússia. Isto, claro, se o Benfica quiser mesmo lutar pelos títulos a que concorre. Porque com Luisão, Garay Jardel e Steven Vitória, o eixo da defesa parece dar garantias de coesão. E coesão foi o que mais de viu mais na noite de segunda-feira no Estádio da Luz. Sem ter feito uma exibição portentosa, o Benfica ganhou muito bem os três pontos que estavam em causa.
É essa a nossa causa. É que não vejo outra.

Fonte: Leonor Pinhão @A Bola

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