domingo, março 16, 2014

O nosso homem no FMI

Miguel Relvas reapareceu, sacudindo poeira e teias de aranha, para integrar um órgão do PSD. Tive pena que o regresso não tivesse sido acompanhado por música porque, a fazer fé em certo videoclip do Michael Jackson, os mortos-vivos dançam todos muito bem

O grande erro das pessoas que dizem falar com os mortos é o aparente sucesso da comunicação. Eu tenho muita dificuldade em falar com os vivos, em perceber o que dizem, em fazer-me entender. No entanto, a comunicação com os mortos faz-se sempre sem problemas. Não há equívocos, mal-entendidos, pequenas imprecisões. Nenhum morto diz: "Não me recordo", "Pode repetir a pergunta?", "Desculpe, enganei-me, não era bem isso que eu queria dizer." O leitor de jornais tem experiências de comunicação muito mais estranhas e até misteriosas. Ainda esta semana me aconteceu. Primeiro, ouvi uma voz do Além. Vítor Gaspar, que eu julgava já não estar entre nós, deu uma entrevista em que dizia: "É insultuoso ser considerado o quarto elemento da troika." Dias depois, apareceu uma notícia intitulada: "Gaspar confirmado em alto cargo do FMI". É possível achar insultuoso ser considerado um elemento da troika enquanto se integra um organismo da troika? Talvez. Nada me impede de achar insultuoso que me chamem palhaço quando estiver no palco, com o nariz vermelho, sapatos muito grandes e uma flor na lapela que esguicha água. Resta esperar que Gaspar possa fazer por nós, junto do FMI, apenas metade do que fez pelo FMI junto de nós.

Mais ou menos na mesma altura, Miguel Relvas reapareceu também, sacudindo poeira e teias de aranha, para integrar um órgão do PSD. Tive pena que o regresso não tivesse sido acompanhado por música porque, a fazer fé em certo videoclip do Michael Jackson, os mortos-vivos dançam todos muito bem. Após o ressurgimento de Relvas, a imprensa voltou a registar fenómenos estranhos: os comentadores disseram não compreender o mistério de Relvas ter sido convidado para voltar à política; Relvas disse que ia explicar aos comentadores o mistério de ter aceitado o convite. Não sei se a confusão ficou clara. Relvas não precisa de explicar porque é que aceita convites. Já sabemos que os aceita quase todos. Misterioso é o facto de ele continuar a ter convites para aceitar. Foi por isso que tomei nota de mais este caso de falhas de comunicação entre pessoas relativamente vivas.

Antes de tudo isto, já Jorge Coelho tinha aparecido no PS. Tinha saído do Governo na sequência da queda da ponte de Entre-os-Rios, "para que a culpa não morresse solteira". Entretanto, a culpa, após o matrimónio de conveniência com Coelho, deve ter falecido, e o antigo ministro foi CEO da Mota-Engil já viúvo da culpa. Até porque seria estranho que um homem casado com a culpa por um episódio de desmoronamento de uma construção fosse comandar uma empresa de construções. Coelho, Relvas e Gaspar, cada um à sua maneira, casaram todos com a culpa. Mas foram casamentos breves, e os divórcios muito amigáveis.

Fonte: Ricardo Araújo Pereira@Visão

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