sábado, janeiro 02, 2016

Balanço do ano

FIGURA NACIONAL DO ANO - O PIN DE PASSOS COELHO
Na minha opinião, a figura nacional do ano é aquela pequena aplicação metálica que tem um Passos Coelho à volta. Trata-se do grande símbolo de um fenómeno novo: o pintriotismo.

O pintriotismo é o patriotismo que se exprime por intermédio de um pin. O equivalente a pintar a esfera armilar na cara quando se vai ver um jogo da selecção.

É barato e fácil dois valores que o antigo primeiro-ministro aprecia.

Na verdade, o pintriotismo acaba por ser patriotismo pindérico.

Esperava-se que, com a passagem de Passos Coelho para a oposição, o pin desaparecesse. O facto de se ter mantido tem significado. Se Passos usasse o pin apenas no governo, isso queria dizer que o uso do emblema se relacionava com a representação do País. Mas o provável antecessor de Rui Rio na liderança do PSD passou a usar o pin quando foi para o governo e nunca mais o tirou, o que significa que só descobriu o pintriotismo em São Bento. Enquanto fazia oposição a Sócrates, Passos não era pintriótico. A oposição pintriótica terá agora o seu grande teste. Talvez seja necessário aumentar o tamanho do pin.



ACONTECIMENTO NACIONAL DO ANO - CAMPEONATO DE BOÇALIDADE
Este foi o ano em que dois cientistas propuseram novas e interessantes teorias acerca da homossexualidade. Pedro Arroja, trabalhando sobretudo a partir da área da anatomia, revelou que sua mãe não detinha competências para elaborar pénis, pelo que o arquitecto do seu órgão sexual era Deus.

Daqui resultava, como é evidente, que os homossexuais não deveriam ter contacto com crianças. Partindo do âmbito da biologia, Nuno da Câmara Pereira adiantou que quem tem voz grossa possui hormonas masculinas, o que significa que a homossexualidade é uma moda. Trata-se, no fundo, de uma forma de ocupar os tempos livres. Depois do lobby gay, o hobby gay. As declarações do fadista foram recebidas com perplexidade por toda a gente menos por mim. O cantor defende que os homossexuais escolhem dedicar-se à homossexualidade porque deseja reivindicar uma responsabilidade nesta moda. O maior êxito da carreira musical de Nuno da Câmara Pereira continua a ser o tema "Meu querido, meu velho, meu amigo". Como sabe qualquer pessoa que tenha prestado a mínima atenção à letra, a canção debruça-se sobre um assunto clássico da literatura LGBT: a relação de um jovem com um homem mais velho. Nenhum aspecto da homossexualidade inter-geracional é esquecido: a atracção pela beleza física do homem maduro ("esses seus cabelos brancos, bonitos"), a experiência do gay mais velho transmitida ao mais novo ("me ensinando tanto do mundo", "seu conselho certo me ensina"), a consumação do amor ("beijo suas mãos", "meu querido"). Mas nenhum verso é mais revolucionário (e maroto) do que o célebre "olhando seus cabelos tão bonitos, beijo suas mãos", em que aquilo que é dito fica bem aquém do que o que se deixa por dizer. Vale a pena fazer uma leitura mais próxima e reparar naquele gerúndio: a voz que fala no poema diz beijar as mãos do homem mais velho enquanto olha os seus cabelos. Ora, se dois homens estiverem de pé, frente a frente, um não consegue beijar as mãos do outro "olhando seus cabelos", por mais bonitos que sejam. Quando toma as mãos do outro para as beijar, volta a cabeça para baixo e consegue beijá-las, sim, mas olhando o chão. A única maneira de um homem conseguir beijar as mãos de outro "olhando seus cabelos" é estando ajoelhado à sua frente.

O jovem a que Nuno da Câmara Pereira dá voz em "Meu querido, meu velho, meu amigo" está, portanto, de joelhos em frente a um homem mais velho. Enquanto lhe beija as mãos olha para cima com olhos de corça, adivinha-se e contempla os cabelos, tão bonitos, do seu querido.

Acredito que, assim como muitos jovens heterossexuais deram o seu primeiro beijo ouvindo Frank Sinatra, muitos jovens gays tenham iniciado a sua vida sexual ao som do hino "Meu querido, meu velho, meu amigo", de Nuno da Câmara Pereira. A homenagem é devida e é justa.



FIGURA INTERNACIONAL DO ANO - O CABELO DE DONALD TRUMP
O cabelo de Donald Trump tem, justificadamente, mais proeminência do que o próprio Donald Trump. A carreira de Trump parece ser, toda ela, uma estratégia falhada para que as pessoas deixem de reparar no seu cabelo. "Se eu disser que vou construir uma parede ao longo da fronteira com o México e que obrigarei os mexicanos a pagá-la, as pessoas deixarão de reparar no meu cabelo", parece pensar o milionário.

E seríamos tentados a dar-lhe razão. No entanto, não é isso que acontece. Talvez o problema seja americano. Em Portugal, por exemplo, uma pessoa com o tacto de Donald Trump não costuma ter outro fórum para dar as suas opiniões do que as caixas de comentários de jornais online. No máximo, pode aspirar a presidir ao governo regional da Madeira durante umas décadas. Mas não mais do que isso.



ACONTECIMENTO INTERNACIONAL DO ANO - HIGIENE VERBAL
Na universidade Mount Holyoke foi cancelada a exibição da peça "Monólogos da Vagina" alegando que poderia ser ofensiva para as mulheres que não possuem uma vagina. O espectáculo foi substituído por outro que não melindrasse estudantes transgénero. Na universidade de Birmingham, a associação de estudantes baniu o uso de sombreros e outra indumentária "racista". Na universidade de Harvard, alunos pediram à professora de direito penal que não referisse os crimes de natureza sexual, para não perturbar estudantes que tivessem eventualmente sido vítimas desse tipo de crimes.

Na universidade de Oxford, um debate sobre aborto foi cancelado porque os alunos não gostavam dos participantes. Na universidade de Yale, alunos exigem que certas máscaras de Halloween, como as que envolvem a chamada "blackface" (escurecer o tom de pele), sejam proibidas. Na sequência deste incidente, ficou célebre o vídeo (está no YouTube) em que uma aluna grita com um director que recusa regulamentar o bom gosto no uso de fantasias. Diz ela, entre outras coisas: "Eu quero sentir-me segura, quero sentir-me em casa." Creio que um estudante deve querer sentir-se em casa. Mas e reparem na coragem com que exprimo esta opinião exótica apenas quando estiver em casa. Quando estiver na universidade, deve sentir-se na universidade. A universidade é, aliás, um dos sítios nos quais descobrimos que há pessoas cuja casa não queremos frequentar. Mas, para que essa descoberta extremamente útil ocorra, é preciso que as pessoas falem.

Os estudantes parecem pensar cada vez mais que, num mundo ideal, as pessoas só exprimem opiniões que não ofendem ninguém. O que significa que o mundo ideal é mesmo muito silencioso. Para justificar a censura, os estudantes costumam qualificar as ofensas como "micro-agressões", o que acaba por constituir uma esperança. As micro-agressões não devem fazer mais do que micro-aleijar, o que as torna bastante suportáveis.

Basta ir para casa e tratar da micro-mágoa.

Se for caso disso, com micro-terapia.


Fonte: Ricardo Araujo Pereira @ Visão

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