sábado, outubro 13, 2018

Desporto de fim de semana - 2018/10/13

Futebol 
Sábado, 2018/10/13
 - 17:00 - Portugal -v- Bielorrússia - Qual. Euro U17 2019 (CM TV)
 - 19:45 - Holanda -v- Alemanha - UEFA Nations League A 2018/19 (SportTv1)

Domingo, 2018/10/14
 - 17:00 - Escócia -v- Portugal - Amigáveis 2018 (RTP1)
 - 19:45 - Polónia -v- Itália - UEFA Nations League A 2018/19 (SportTv1)

Segunda-feira, 2018/10/15
 - 19:45 - Espanha -v- Inglaterra - UEFA Nations League A 2018/19 (SportTv1)
 - 19:45 - Finlândia -v- Grécia - UEFA Nations League C 2018/19 (SportTv3)

Terça-feira, 2018/10/16
 - 16:45 - País de Gales -v- Portugal - Qual. Euro U17 2019 (CM TV)
 - 19:00 - Brasil -v- Argentina - Amigáveis 2018 (SportTv2)
 - 19:00 - Portugal -v- Bósnia e Herzegovina - Euro U21 19 (Q) (CM TV)
 - 19:45 - Bélgica -v- Holanda - Amigáveis 2018 (SportTv3)
 - 19:45 - França -v- Alemanha - UEFA Nations League A 2018/19 (SportTv1)

Quinta-feira, 2018/10/18
 - 01:45 - Corinthians -v- Cruzeiro - Copa do Brasil 2018 (SportTv2)




Tenis
Domingo, 2018/10/13

O estranho caso da fantochada ridicula

Foi o último caso do meu amigo Holmes. Quando nos bateram à porta, no número 221 B de Baker Street, para nos falarem do furto das armas em Tancos, estávamos longe de imaginar que aquele episódio nos deixaria marcas indeléveis. Holmes estava muito habituado a casos diabolicamente intrincados, mas era a primeira vez que se deparava com uma fantochada ridícula. Tudo começou quando um jornalista português nos pediu ajuda para deslindar um crime: armas tinham sido roubadas de um paiol do exército. 

Holmes nem pestanejou:
– Inside job – disse. – Foi alguém de dentro. Os paióis militares têm alta segurança que nenhum civil seria capaz de contornar.
– Isso é verdade na maior parte dos países – observou o jornalista. – Mas em Portugal é tudo um bocado à balda.
– À balda… – repetiu Holmes.

Ficou preocupado. O problema apresentava elementos de fantochada ridícula, o único tipo de caso que a sua argúcia extraordinariamente racional não era capaz de resolver.

– Repare que o exército nem foi capaz de dizer ao certo quantas armas tinham desaparecido – disse o jornalista.
– Hum… Só falta dizerem que nem sequer têm a certeza de que existiu um roubo – escarneceu Holmes.
– Foi o que disse o ministro.

Holmes ficou branco. Fizera uma piada parva e afinal a sua conjectura absurda era realidade. Naquele momento, ficara sem dúvidas: estava perante uma fantochada ridícula.

– Watson, isto é uma fantochada ridícula. Vá buscar o meu ópio, por favor.
– Mas Holmes…
– Tenha paciência, meu amigo. Já sabe que só consigo compreender estes casos portugueses se estiver drogado. E mesmo assim é difícil. Ainda não consegui perceber o processo da transferência do Infarmed para o Porto.
– Afinal o Infarmed já não vai para o Porto – informou o jornalista.
– Rápido, Watson, o ópio.

Assim que a droga fez efeito, Holmes começou a delirar e a dizer coisas sem nexo. E aí, sim, começou a acertar no que se passava em Portugal.

– Se calhar o furto foi um favor que os ladrões fizeram, porque as armas não prestavam.
– Sim, isso foi dito.
– Mais ópio, Watson. Entretanto, como as armas eram sucata, os ladrões devolveram-nas.
– Exactamente!

O jornalista estava impressionado.

– Mas devolveram armas a mais.
– Sim! – disse o jornalista. – Mas depois afinal descobriu-se que devolveram a menos.
– Raios! Mais ópio, Watson! O ladrão foi ajudado pela polícia.
– Bravo, sr. Holmes! – gritou o jornalista. O modo como Holmes dizia coisas absurdas que se confirmavam era incrível. – E onde é que o ladrão escondeu as armas?
– Num… num… num parque infantil! Não, num hospital! Nos Jerónimos! – Holmes delirava.
– Foi em casa da avó, sr. Holmes. O ladrão escondeu as armas em casa da sua avozinha.
– Raios, Watson! Mais ópio!

E foram as suas últimas palavras, antes de entrar em coma.



Fonte: Ricardo Araujo Pereira @ visão

À porta fechada, fechadíssima, por favor, IPDJ!

A melhor coisa que podia acontecer ao Benfica era o jogo com o Porto ser à porta fechada. Explicações, não sei dar. É só a intuição a falar. E, nestas como em outras matérias, a intuição é que sabe. Assim sendo, uma vez mais, cá vai: a melhor coisa que de longe poderia acontecer ao Benfica era ver-se condenado a disputar o seu jogo com o Porto à porta fechada. E é exactamente por esta razão, por ser a melhor coisa que podia acontecer ao Benfica, que tal coisa não vai acontecer. Não é porque não haja coragem política ou desportiva para fechar o Estádio da Luz ao público por um ou dois ou três jogos ou mesmo por uma década. Há. Dessa coragem há. Não há é da outra. E porquê? Olhem, porque, quer interna quer externamente, o que o Benfica se arriscava a ganhar no presente, no futuro imediato e no longínquo se o seu jogo com o Porto fosse à porta fechada, compensá-lo-ia com abundância de todos estes pequenos e tão transitórios incómodos.
O próprio presidente do Porto, que ainda saberá prestar atenção ao seu instinto, tem abordado a situação em modo tremeliques. Ouçam-no bem. "Ainda bem que o jogo não vai ser à porta fechada porque o futebol é um espectáculo para ser vivido pelos adeptos", disse aos jornalistas sem nada que se parecesse com a ironia do costume. Carrega, IPDJ! Coragem, IPDJ! Atrevam-se lá a desmentir o velhote!
Durou escassos 14 minutos o serviço inaugural de Jardel como 1.º capitão do Benfica. O serviço foi interrompido porque Jardel se magoou num pé e teve de ser substituído por um companheiro estreante nestas responsabilidades, muito estreante mesmo como se acabaria por constatar. Jardel era o sub-capitão do Benfica até ao dia, no princípio desta semana, em que Luisão anunciou a retirada. Agora o Benfica não tem Luisão, não tem Jardel e não tem Conti para o seu próximo compromisso caseiro. O soldado desconhecido Lema dará certamente conta do recado para espanto de toda a gente. E até Luisão, depois de gozar uma semana e meia de reforma, poderá voltar ao trabalho para fazer uma perninha no clássico. E que perninha.
Esta direcção da Liga de Clubes revela-se tal-qual uma nulidade. Ou talvez não. Talvez seja de uma benevolência descabida qualificar como nulidade um órgão que se demite das suas responsabilidades mais básicas. Por exemplo, as de velar pelo bom nome das competições profissionais organizadas sob a sua égide. Permanentemente e pelas vias oficiais, vai-se assistindo desde o arranque das provas da corrente temporada, que ainda vai no adro, a uma troca de insultos e de insinuações entre os dois emblemas que por cá costumam disputar os títulos principais. Como não podia deixar de ser, é a arbitragem o foco de todas acusações, denúncias e chorares lancinantes. A direcção da Liga faz ouvidos de mercador e, inquestionada, lá vai mantendo a pose de pechisbeque. É isto ou é má consciência? É má consciência.
E o que choveu em Chaves? Até parecia mentira.



Fonte: Leonor Pinhão @ record

Os coninhas que escondem as pilas

Ah! Oh! Mas que surpresa tão grande! Então não é que a Fundação de Serralves resolveu expor certas fotografias consideradas chocantes numa sala reservada a maiores de 18 anos, quando a tradição, nos museus, é colocar apenas um aviso e deixar ao critério das pessoas a decisão de visitar ou não visitar a exposição? Não me digam que anda por aí uma vaga de moralismo puritano que deseja proteger os cidadãos inocentes de imagens que chocam, canções que indispõem e palavras que fazem dói-dói. Não posso acreditar. Fazia-nos falta, aos surpreendidos, um pastor Martin Niemöller moderno, que descrevesse com eloquência a nossa surpresa, escrevendo: “Primeiro vieram pelo Mark Twain e pela Harper Lee, mas eu não falei – porque também achava que aquela palavra era um bocadinho desagradável. Depois vieram pelo Balthus, mas eu não falei – porque realmente havia uma sexualização extremamente nociva. Depois vieram pelo ‘Hilas e as Ninfas’, mas eu não falei – porque a curadora, coitada, até tinha boas intenções. Quando vieram pelas pilas do Mapplethorpe, finalmente tive tomates – mas já era tarde.”

Talvez seja melhor explicar, esperando que ninguém fique chocado com o relato dos factos extremamente chocantes: a exposição de Robert Mapplethorpe em Serralves inclui fotografias de, digamos, pilas. E de pessoas que têm coisas enfiadas no, por assim dizer, rabo. Numa primeira fase, a Fundação proibiu que certas fotos fossem vistas por menores de 18. Depois, permitiu a entrada de menores, desde que acompanhados pelos pais ou tutores. A favor da Fundação, devo dizer que suspeito de que um jovem de 13 anos, por exemplo, fique chocado com aquelas fotos. E exprima esse choque dizendo: “Isto é parecido com uma coisa que vi há dias no YouPorn, mas esteticamente mais sofisticado e interessante.”

É o choque natural de quem contacta com experiências artísticas.


O mais surpreendente neste caso talvez seja o seguinte: um museu português recebe uma exposição de um artista homossexual com imagens sexualmente explícitas, o que excita pruridozinhos puritanos – e, no entanto, a igreja não disse uma palavra. Eu ainda sou do tempo em que quem fazia esta figura eram bispos. Enfim, vivemos numa sociedade livre e aberta e certos sacerdotes já se conformaram com a derrota. Mas outros ainda estrebucham.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

Empates-morais, sinais de respeito e outras coisas mais

O Benfica atingiu uma marca impressionante. Foi a 8.ª derrota consecutiva da equipa de Rui Vitória na Liga dos Campeões. É obra. As 6 derrotas da tristíssima campanha de 2017/18 seguiram-se à goleada sofrida em Dortmund no jogo da 2.ª mão dos oitavos-de-final da edição de 2016/17 e, nesta quarta-feira, acontecendo o jogo com o Bayern Munique aconteceu a última derrota desta série intolerável tendo em conta os supostos pergaminhos europeus do clube e a prosápia geral da casa no que a esta matéria diz respeito.
São, no entanto, extraordinariamente pacientes os adeptos do Benfica. Por exemplo, o treinador mais criticado no fim do jogo com os campeões da Alemanha não foi Rui Vitória mas, sim, Niko Kovac. Não por ter tomado conta do jogo e da manobra dos donos da casa como e quando quis à boa maneira de um forasteiro prepotente mas, imagine-se, por não ter substituído Renato Sanches nos instantes finais do desafio de modo a permitir que o ex-benfiquista recebesse, pela segunda vez na mesma noite, a estrondosa ovação que lhe seria devida.
"Sacana de treinador, vê-se logo que é alemão, que falta de sentimento…", foram os protestos que campearam pelas bancadas da Luz mal o árbitro espanhol deu por encerrada a sessão. O facto de Kovac ser mais croata do que alemão nem sequer foi relevante perante a indignação da plateia. Sem grandes motivos para aplaudir os seus, a multidão da casa, tendo pago ingresso, queria aplaudir Renato considerando-o ainda um bocadinho como "seu" ou, enfim, considerando-o como a coisa mais parecida, entre todas as coisas que estiveram em campo, com um jogador do Benfica.
Houve muitas crianças que, no fim do jogo, regressaram a suas casas convencidas de que o resultado tinha sido um honroso 1-1 construído com um golo de Lewandowski para os alemães e com um golo de Renato Sanches para nós. E houve um considerável número de espectadores adultos que também regressaram a suas casas com idêntica opinião. São as liberdades interpretativas que, felizmente, se concedem ao público de todas as idades. Mas a verdade é que foi muito especial aquele momento em que o estádio ressoou numa formidável ovação a Renato Sanches não por ter marcado um golo ao Benfica mas por não o ter celebrado em sinal de respeito. E o respeito é sempre muito bonito de se ver. O respeito marca.
Aliás, não foi só o público que sentiu a particularidade daquele raro instante amoroso. Toda a equipa bávara sentiu o mesmo e não houve jogador que não o referisse no pós-match. O Benfica, de facto, não ficou a dever um empate-moral a Renato Sanches mas talvez lhe tenha ficado a dever a condescendência e a bondade da exibição do Bayern Munique depois dos 2-0. "Já chega", terão pensado os campeões da Alemanha em sinal de respeito pelos adeptos mais amáveis da Europa. E foi por isso que o resultado ficou por ali."



Fonte: Leonor Pinhão @ record

quarta-feira, outubro 10, 2018

Runaway - Del Shannon



As I walk along I wonder
what went wrong with our love
a love that was so strong
And as I still walk on I think of
the things we've done together
while our hearts were young

I'm a-walkin' in the rain
tears are fallin' and I feel the pain
Wishin' you were here by me
to end this misery
And I wonder, I wo-wo-wo-wo-wonder
Why, why-why-why-why-why she ran away
And I wonder, where she will stay
My little runaway, run-run-run-run runaway


Tema: Runaway 
Artista : Del Shannon



quinta-feira, setembro 20, 2018

Não há machadinha que corte a raiz ao pensamento

Às vezes decido acabar uma SMS escrevendo: “Um abraço do Ricardo.” Sucede que, sempre que começo a escrever o meu nome, o telefone sugere a palavra “ridículo”. Até hoje nunca aceitei a sugestão, mas o telefone mantém a convicção de que eu deveria despedir-me dizendo: “Um abraço do Ridículo.” Portanto, confirma-se: os smartphones conhecem-nos mesmo muito bem. Não é difícil. O facto de andar sempre comigo, dentro da algibeira, e de assistir às minhas pesquisas no Google, faz com que o telefone adquira uma ideia bastante precisa acerca de quem eu sou. Ridículo é um resumo muito perspicaz. Ainda assim, há alguns pormenores que o telefone desconhece – e que ajudariam a compor e reforçar este retrato. Permitam-me que vos revele um deles, para edificação de todos.

Quando, nas aulas de latim, foi preciso aprender a primeira declinação, o professor dispôs os casos pela ordem do costume (nominativo, vocativo, acusativo, genitivo, dativo, ablativo) e depois escreveu as terminações (singular: a, a, am, ae, ae, a; plural: ae, ae, as, arum, is, is). E então ocorreu-me que um bom modo de memorizar as desinências seria recitá-las ao som da música infantil A Machadinha. Foi o que fiz. A, a, am, era o início da cantiga. Ae, ae, a, correspondia ao verso “minha machadinha”. E por aí fora. Resultou. Entre a primeira declinação e a Machadinha não havia outra semelhança a não ser o facto de uma começar por “A, a, a” e outra por “a, a, am”. Ambas eram difíceis de compreender: eu estranhava igualmente que, por um lado, as palavras tivessem uma forma diferente consoante a função que desempenhavam na frase e, por outro, que alguém quisesse cantar sobre uma machadinha que, não se sabia bem como, saltava para o meio da rua. A voz feminina que cantava na Machadinha acabava a dizer que havia de ir à roda escolher o seu par, que era um rapazinho chamado José. O verso seguinte dizia: “Chamado José, chamado João.” Tratava-se, portanto, de um rapazinho que, como as palavras na língua latina, mudava de designação com facilidade. Resumindo, quando o professor me perguntava pela forma da palavra rosa no genitivo plural, eu cantava mentalmente a Machadinha até à parte “quem te pôs a mão sabendo” e respondia “rosarum”. O professor, desconhecendo o logro que decorria à sua frente, dizia “muito bem”. Mas eu não conseguia evitar corar um bocadinho. E foi assim que estudei latim. Um abraço para todos do Ridículo.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

segunda-feira, setembro 17, 2018

As tais coisas que acontecem na nossa terra



Na imagem que ilustra esta crónica vê-se claramente visto um senhor bombeiro conversando agarrado ao telemóvel (com a mão esquerda), enquanto, agarrado a uma cana de pesca (com a mão direita), procura observar minuciosamente, no meio da fumarada, o funcionamento dos artefactos do festival legalizado de pirotecnia que abrilhantou o dérbi de maio em Alvalade.

O senhor bombeiro vira e revira os artefactos com a ponta da cana de pesca para não se queimar e também para não estragar o espectáculo e lá vai conversando, ao mesmo tempo, com a Protecção Civil de quem recebe instruções concretas: terá de verificar todas as tochas que foram artisticamente disparadas para o relvado, observar-lhes a cor de origem, interrogá-las, uma a uma, exigindo-lhes a apresentação do alvará emitido pelo Instituto Português dos Desportos e da Juventude e do Ver Se Te Avias. Concluídos os procedimentos legais e superiormente confirmada a legalidade dos artefactos artísticos, lá se prosseguiu com a função daquela noite como se nada de raro se tivesse passado. E não se passou nada de raro. Nem de condenável. São as tais coisas que acontecem na nossa terra
O sufrágio do último sábado colocou ponto final no francamente exagerado período de turbulência institucional no Sporting. Apurados os resultados, clarificou-se a situação e dissiparam-se as dúvidas que eram mais do que muitas, eram imensas. Ficou, assim, tudo explicadinho acabando-se pela força do voto com os "alegadamentes" e com as "putativas" mais os "putativos": Bruno de Carvalho é, de facto, o ex-presidente do Sporting, Frederico Varandas é, de facto, o atual presidente do Sporting, José Sousa Cintra será, mais cedo ou mais tarde, o presidente honorário do Sporting e João Benedito será, mais cedo ou mais tarde, o próximo presidente de facto do Sporting.
Quanto a José Maria Ricciardi, que foi durante anos a fio titular do cargo de ‘presidente-sombra’ de facto do clube, acabando por sofrer nas urnas uma gritante penalização com que poucos contavam, a começar pelo próprio Ricciardi, viu-se democraticamente despojado da insondável posição de ‘presidente’ e passou a ser, apenas, ‘sombra’ porque lhe aconteceu não colher votos que lhe sustentassem o anterior e singular duplo estatuto. Coisas que acontecem.
Acusado pelo Ministério Público de corromper funcionários judiciais a troco de bilhetes para a bola e de camisolas do Benfica, Paulo Gonçalves estará de saída do cargo que ocupou na SAD da Luz. Gonçalves irá defender-se fora do Benfica de tudo o que pesa sobre a sua honorabilidade. Elementar. Aliás, coisa mais elementar do que esta não há.
Recebendo esta noite o Rio Ave, o Benfica entra em acção na Taça da Liga onde, na temporada passada, fez uma pequeníssima figura. Espalhou-se ao comprido, é verdade, e logo na temporada em que a Taça da Liga, por milagre, passou a ser importante e considerada. Coisas…



Fonte : Leonor Pinhão @ record

sexta-feira, setembro 14, 2018

Hora essa

Quando se soube que a Comissão  Europeia ia propor o fim da mudança da hora tive, mais uma vez, uma sensação de conforto e segurança. É muito bom saber que, enquanto eu vivo de forma inconsciente e despreocupada, há gente responsável, num gabinete de Bruxelas, a operar as transformações de que o mundo precisa. Além disso, esta proposta vem ao encontro da minha perspectiva sobre a vida. Com o fim da mudança da hora, no inverno o dia nasce às 9 da manhã, e eu sempre disse que 9 da manhã é madrugada. Talvez agora me compreendam.

A regulamentação do calibre das frutas foi um primeiro passo para vivermos uma vida melhor e mais civilizada. Nunca mais tivemos de passar pela experiência traumática de comprar uma maçã de diâmetro irregular. Mas continuava a ser perturbador adquirir maçãs regulamentares às 9 da manhã no inverno. Havia demasiada luz. Por isso, e concretizando certamente um sonho de Jean Monnet, a União Europeia vai intervir no sentido de acabar com a mudança da hora.
Talvez seja injusto atribuir a responsabilidade desta medida exclusivamente à União Europeia.

As notícias sobre o assunto dizem que, e cito: “A maioria dos europeus quer acabar com a mudança da hora.” Fui então investigar em que consulta popular é que a maioria dos europeus exprimiu este desejo e descobri que a União Europeia fez um inquérito na internet em que participaram 4,6 milhões de cidadãos dos 28 Estados-membros, 3 milhões dos quais eram alemães. Tendo a União Europeia 508 milhões de habitantes, 4,6 milhões corresponde a menos de 1% da população. Sucede então que a maioria de uma esmagadora minoria de cidadãos deseja que, em Janeiro, o dia amanheça às 9. Não sei quantos dos 508 milhões de habitantes da União Europeia trabalham no ramo da electricidade, dos candeeiros e das lanternas, mas suspeito que o número ande à volta dos 4,6 milhões.


Pessoalmente, a alteração vai causar-me algum transtorno. A mudança da hora constituía uma excelente desculpa para chegar atrasado. Com jeito, conseguia esticar a desculpa durante uma ou duas semanas. “Fiz confusão porque ainda não mudei o relógio do carro”, por exemplo, era um clássico muito eficaz. Enfim, é mais uma tradição antiga  que se perde em nome do progresso. Ao menos  sabemos que é por uma boa causa.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

segunda-feira, setembro 10, 2018

Crónica futurística: exílio do Benfica e o país em 2022

Oito de Setembro de 2022. Cumpre-se hoje a 4.ª jornada do campeonato espanhol e o Benfica joga em Valladolid. São esperados 15 mil portugueses. É uma alegria para o comércio local e também para o clube anfitrião, que vê assim esgotada a lotação do Estádio José Zorrilla. O presidente da Real Federación Española de Fútbol tinha razão quando, no já distante verão de 2019, ao aceitar a inscrição do Benfica em La Liga, prometeu aos espanhóis que a presença do maior clube português teria reflexos importantes na indústria. E, de facto, assim tem acontecido, superando até as expectativas. Ainda há duas semanas, quando na 2.ª jornada foi o Benfica jogar no campo do Girona, nem os 1400 quilómetros que distam entre Lisboa e aquela cidade catalã impediram que uma multidão de benfiquistas enchesse o Estádio Montilivi para assistir a uma expressiva vitória do seu emblema e ao regresso de Jonas depois daquele aborrecido problema lombar.

'O Benfica trará maiores benefícios ao futebol espanhol do que aqueles que o Mónaco empresta ao campeonato francês ou mesmo dos que os clubes de Israel emprestam às competições organizadas pela UEFA', disse na altura o presidente da RFEF. Na altura ninguém o levou a sério e a novidade foi até recebida com foros de excentricidade internacionalista. Mas, logo na primeira época em que o Benfica jogou em La Liga 2019/20, os índices da sua presença foram altamente satisfatórios. Aumentaram as assistências no estádios e as receitas dos operadores televisivos espanhóis, aumentaram as tiragens dos jornais 'As' e 'Marca', que passaram a vender-se nos quiosques das cidades portuguesas, aumentaram as receitas do comércio local por todo o país vizinho e aumentou a cotação dos jogadores do Benfica que, jogando no campeonato espanhol, passaram a ter uma visibilidade de mercado inatingível em Portugal.

A economia portuguesa é que tem sofrido um bocado com esta proscrição. A cada segunda-feira, milhares e milhares de cidadãos nacionais comparecem nos seus postos de trabalho extenuados pelos milhares de quilómetros que percorrem na Ibéria ao fim de semana para apoiar o Glorioso. O impacto desta situação por cá e já um caso sociológico: o campeonato português, coitado, é uma miséria total, o Record, 'A Bola' e 'O jogo' fundiram-se num só título e as estações de televisão passaram a transmitir nas suas noites uma programação toda virada para a ópera italiana, para a cartomancia e para a jardinagem. A águia Vitória foi fuzilada em directo - o que levantou algumas objecções dos ambientalistas internacionais - e encontram-se actualmente empalhada no gabinete de uma pessoa importante. Hoje, no Seixal vivem apenas a Madonna mais os filhos e todos aqueles relvados foram transformados num acampamento para lisboetas despejados de suas casas pela pressão imobiliária. Muito mais do que um clube, o Benfica é uma obra social. Y olé!"



Fonte: Leonor Pinhão @ record

sábado, setembro 08, 2018

Parque de campismo da Portela

Enquanto não sai um novo e muito necessário guia do viajante português, já adaptado às novas dificuldades criadas pelo turismo, avanço aqui com alguns conselhos úteis para os cidadãos que ainda pretendam utilizar o Aeroporto Internacional de Lisboa neste período de férias. Em primeiro lugar, continua a ser importante não esquecer o passaporte mas também a tenda. A tenda vai ser útil para descansar – e, talvez, até pernoitar –, até ao momento de fazer o check-in. O melhor local para montar a tenda seria junto dos balcões, mas é muito improvável que consiga chegar lá sem escolta policial. O melhor é acampar junto dos táxis. Também essencial é levar uma esfregona. Entre a choradeira das crianças aborrecidas com a espera, dos turistas que chegam com atraso e de gente cujos voos são periodicamente adiados, há muitas poças de lágrimas que, se não forem limpas, podem gerar bastante humidade na sua tenda. Passageiros que levem dois ou três dispositivos pirotécnicos são tolerados e até bem recebidos porque, na eventualidade de conseguirem chegar à zona do raio X, é apenas humano querer soltar um ou dois foguetes. A partir daqui, é ajuizado levar um bom lote de mantimentos. Por causa do constante adiamento da hora de embarque, comida enlatada e outros alimentos não perecíveis são aconselhados. Para o período em que, já a bordo do avião, se aguarda pela autorização de partida, é conveniente levar uma boa biblioteca. Quem tenha recursos para isso e tiver empenho em investir na sua educação fará bem em levar consigo um professor, e conseguirá licenciar-se ainda antes de levantar voo. Os cursos de Filosofia e História, que requerem sossego e tempo para ler e reflectir, serão talvez os melhores. A chegada ao destino também requer tramitação complexa. O viajante deve aproveitar o tempo livre para preencher a candidatura ao subsídio de desemprego, uma vez que será despedido antes de voltar a Portugal. Os atrasos nos voos de regresso, motivados pela sobrelotação do aeroporto, obrigá-lo-ão a faltar a uma ou duas semanas de trabalho. O subsequente internamento numas termas, para recuperar do stress vivido no aeroporto, eleva para seis meses o período de inactividade. 

Boas férias!



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão



sábado, setembro 01, 2018

E este calor?

Haverá alguma característica especificamente portuguesa, que se possa identificar sem corrermos o risco de cair numa generalização grotesca?  A minha resposta, que não surpreenderá os leitores habituais desta coluna,  é: não faço a mínima ideia. Mas gostaria de arriscar um palpite. Se há traço que distingue o povo português dos outros é este: a gente gosta de comer e de falar sobre comida. Sendo duas coisas diferentes, na verdade são a mesma. A língua portuguesa tem um valor nutritivo que as outras não têm. Creio que  é possível engordar a falar de comida em português. Vai um chouricinho? E se amanhã fizéssemos uma bacalhauzada? Boa sorte a traduzir estas perguntas para inglês, francês ou alemão. Eles sabem (vagamente) o que é chouriço e bacalhau.  Mas nunca hão-de saber o que é um chouricinho  e uma bacalhauzada. Falar de comida, em português, enche. Já tenho tomado refeições com gente de outros países e nunca vi nada parecido. Numa mesa de portugueses, come-se, recordam-se refeições passadas e projectam-se refeições futuras.  E obtém-se tanto prazer da comida como da conversa sobre comida. Estamos a comer umas sardinhas mas alguém lembra aquela vez que comeu grande sopa de cação e depois conclui-se que o que ia bem ao jantar era uma cabidela.  A gente ama através da comida – e é um amor bruto, como o único amor que vale a pena. Dizemos coisas que, apesar de carinhosas, estão bastante próximas do universo do crime. Por exemplo: “Você não sai daqui sem provar este salpicão.” Isto é vocabulário de sequestrador. E, no entanto, é ternura.

Pelo contrário, a conversa sobre o tempo não tem interesse nenhum. É, digamos, intransitiva. Está calor, não está? Sim, e então? Ui, que frio. Nunca mais vem o tempo quente. Pois, pois.  Não há nada para acrescentar. Ninguém recorda uma tarde muito gira em que estavam 17 graus, nem diz a um amigo que não vai sair lá de casa sem sentir uma brisa quente que às vezes corre  no jardim. A única maneira de tornar interessante  uma conversa sobre o tempo (ou sobre outra  coisa qualquer) é acrescentar uma nota sobre comida. Está calor, não está? Está. Quando  as noites estão assim quentes, o que sabe bem  é uma saladinha de polvo.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

sábado, agosto 25, 2018

Modalidades - 2018/08/25

Sábado, 25 de Agosto de 2018
 - 11:00 - Futebol - SL Benfica -v- Vitória FC - Liga Revelação - Sub 23 - Jornada 2
 - 15:00 - Futsal - SL Benfica -v- Movistar Inter - Record Masters Cup - Ronda 1 
 - 16:00 - Futebol Feminino - Clube de Albergaria -v- SL Benfica - Amigável
 - 19:00 - Futebol - SL Benfica -v-Sporting CP - Liga NOS - Jornada 3 (BTV)

 Domingo, 26 de Agosto de 2018
 - 13:30 - Futsal - SL Benfica -v- Magnus Futsal - Record Masters Cup - Ronda 2 
 - 17:00 - Andebol - SL Benfica -v- Sporting CP - Supertaça - Final 
 - 18:00 - Futebol - SL Benfica B -v- CD Mafra - Segunda Liga - Jornada 3 (BTV)

Terça-Feira, 28 de Agosto de 2018
 - 18:00 - Futebol - Sporting CP -v- SL Benfica - Liga Revelação - Sub 23 - Jornada 3

Quarta-Feira, 29 de Agosto de 2018
 - 20:00 - Futebol - PAOK Salónica -v- SL Benfica - Liga dos Campeões - Jogo 2



Desporto de fim de semana - 2018/08/25

Futebol
Sábado, 2018/08/25
 - 12:30 - Wolverhampton -v- Manchester City - Premier League 2018/19 (SportTv2)
 - 15:00 - Arsenal -v- West Ham - Premier League 2018/19 (SportTv2)
 - 16:00 - Paris SG -v- Angers - Ligue 1 18/19 (11Sports 1)
 - 17:00 - Juventus -v- Lazio - Serie A 2018/19 (SportTv3)
 - 17:30 - Liverpool -v- Brighton & Hove Albion - Premier League 2018/19 (SportTv2)
 - 19:00 - Benfica -v- Sporting - Liga NOS 18/19 (BTv)
 - 19:15 - Atlético Madrid -v- Rayo Vallecano - Liga Espanhola 18/19 (11Sports 1)
 - 19:30 - Napoli -v- Milan - Serie A 2018/19 (SportTv3)
 - 21:15 - Valladolid -v- Barcelona - Liga Espanhola 18/19 (11Sports 1)

Domingo, 2018/08/26
 - 00:00 - River Plate -v- Argentinos Juniors - Campeonato Argentino 2018/19 (SportTv3)
 - 13:30 - Watford -v- Crystal Palace - Premier League 2018/19 (SportTv2)
 - 16:00 - Newcastle -v- Chelsea - Premier League 2018/19 (SportTv2)
 - 16:00 - Bordeaux -v- Monaco - Ligue 1 18/19 (11Sports 1)
 - 17:00 - Borussia Dortmund -v- RB Leipzig - 1. Bundesliga 18/19 (11Sports 3)
 - 17:00 - Alverca -v- Fátima - Campeonato de Portugal SC 2018/19 (Online)
 - 17:15 - Espanyol -v- Valencia - Liga Espanhola 18/19 (11Sports 2)
 - 18:00 - Benfica B -v- Mafra - Ledman LigaPro 18/19 (BTv)
 - 21:15 - Girona -v- Real Madrid - Liga Espanhola 18/19 (11Sports 2)

Segunda-feira, 2018/08/27
 - 19:30 - Roma -v- Atalanta - Serie A 2018/19 (SportTv3)
 - 20:00 - Manchester United -v- Tottenham - Premier League 2018/19 (SportTv2)

Quarta-feira, 2018/08/29
 - 20:00 - PAOK -v- Benfica - Liga dos Campeões [Qual] 18/19 (TVI)
 - 23:30 - River Plate -v- Racing Club - Libertadores 2018 (SportTv2)

Quinta-feira, 2018/08/30
 - 01:45 - Corinthians -v- Colo-Colo - Libertadores 2018 (SportTv2)

Sexta-feira, 2018/08/31
 - 01:45 - Palmeiras -v- Cerro Porteño - Libertadores 2018 (SportTv2)
 - 19:30 - Milan -v- Roma - Serie A 2018/19 (SportTv2)



Formula 1
Domingo, 2018/08/26
 - 13:00 - Belgica - Johnnie Walker Belgian Grand Prix



Tenis
Domingo, 2018/08/26
 - WTA - Connecticut Open - New Haven, U.S.A.
 - ATP - Winston-Salem Open - Winston-Salem, NC, U.S.A.



Ver futebol: um desporto caro

Há 30 anos quase não havia futebol na televisão. Agora quase não há outra coisa. Naquela altura era preciso ouvir os relatos na rádio. Agora há canais de televisão que transmitem o jogo e outros que transmitem um jornalista a ver o jogo e a relatá-lo. Em breve, aposto, teremos outro canal a fazer o relato do canal que está a fazer o relato. Imagino que uma estação de baixo orçamento, que não tenha dinheiro para subscrever o canal que está a dar o jogo, passe a usar esta estratégia em breve: fazer o relato do relato. “Neste momento, o jornalista que está a ver o jogo diz que o Benfica está a atacar. Parece que a bola foi para fora. Diz que agora é pontapé de baliza.” É como se um vizinho nosso tivesse um vizinho que tem um vizinho que o deixa ver o jogo.

E há ainda os comentários ao futebol, os comentários aos comentários, as pessoas que assinalam o excesso de comentários, e as que, como eu, além de observarem tudo isto, ainda se observam a si mesmas a observar, imaginando assim obter algum tipo de salvação. Quando eu tinha 15 anos os jogos não eram transmitidos, salvo raríssimas excepções. Havia o Domingo Desportivo, que dava o resumo dos melhores momentos e às vezes nem isso porque, “por razões a que somos alheios, só foi possível captar os últimos instantes deste lance”. Agora vemos todos os jogos da primeira divisão, vários da segunda e alguns treinos. Além dos campeonatos estrangeiros e das competições internacionais. Parece que, neste momento, para ter acesso a todos os jogos, é preciso pagar mais ou menos 50 euros por mês, ou seja, 600 euros por ano. Há o campeonato inglês, que é o melhor do mundo. O espanhol, que é o segundo melhor. O italiano, onde joga Cristiano Ronaldo. O francês, que tem Leonardo Jardim. Entretanto, Paulo Sousa e Vítor Pereira estão na China. E ainda falta a Liga dos Campeões, claro. Os campeonatos mais obscuros foram ganhando os chamados “factores de interesse”. Um dos “factores de interesse” mais comuns é a presença de “jogadores bem conhecidos do futebol português”. Que “pontificam” em certas equipas. Assistir ao jogo da equipa chinesa em que “pontifica” um jogador “bem conhecido do futebol português” porque “actuou” no Estoril entre 2013 e 2015 é, de repente, uma absoluta necessidade. Não é ironia, estou mesmo curioso por saber o que fará Sebá ao serviço do Chongqing Lifan, clube em que pontifica. Já estou a poupar dinheiro para subscrever todos os canais.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ visão

quinta-feira, agosto 16, 2018

Partes da vida que não entram nos filmes

E isto é uma obra complicada, sr. Blofeld. Só em escadarias e plataformas, temos aqui trabalho para meses. Se não fosse o lago das piranhas e a ponte que tem o alçapão para matar inimigos e castigar funcionários incompetentes, eu tinha-lhe isto pronto para o Natal

– Isto agora só lá para Fevereiro, sr. Blofeld.

– Ó sr. Martins, o fim do prazo era Junho. Entretanto, já estamos em Agosto. Agora diz-me que é Fevereiro?

– Há sempre imprevistos. Uma pessoa também não controla tudo, não é? Se não me chegam os materiais eu não consigo avançar com a obra.

– Sim, mas daqui a pouco estamos com um ano de atraso.

– E isto é uma obra complicada, sr. Blofeld. Só em escadarias e plataformas, temos aqui trabalho para meses. Se não fosse o lago das piranhas e a ponte que tem o alçapão para matar inimigos e castigar funcionários incompetentes, eu tinha-lhe isto pronto para o Natal.

– Como, se falta tanto? A sala de controlo ainda agora foi acabada e já está cheia de humidade. Tenho os painéis de instrumentos cheios de verdete.

– Pois, mas isso é muito simples: ou quer secretismos e aguenta a humidade ou abre uma boa janela e fica com isto arejado. As duas coisas é que não pode ser. A sala de controlo é abafada? É, sim senhor. Mas eu disse-lhe que era melhor lançar os foguetões lá fora. Você é que teimou que não. Não ouvem os técnicos, e depois é isto. Este já é o terceiro covil subterrâneo que eu faço para a SPECTRE e nunca tive problemas.

– Entretanto, o cheiro a enxofre não desaparece.

– Ah, mas isso, meu amigo: isto é um vulcão. Por mais ventilação que ponha aqui, vai-lhe cheirar sempre a enxofre. Há uns ambientadores bons, agora, com cheiro a lavanda. Experimente.


– Pois, mas seja como for eu assim não consigo dominar o mundo. Tenho os astronautas raptados desde Maio e não posso lançar os foguetões para provocar um conflito mundial, porque as rampas de lançamento não estão prontas.

– O meu cunhado diz que os alumínios chegam para a semana. Assim que eu tiver os alumínios, começo-lhe a fazer as rampas para os foguetões.

– A qualquer momento pode-me chegar aí o 007 e eu tenho um covil inacabado, os painéis de controlo avariados e tresanda a enxofre. Dá muito mau aspecto.

– O pior nem é se chega o 007. Se lhe aparece a vistoria da câmara é que você está tramado. As telas que nós enviámos têm metade da área disto.

– Antes de eles aparecerem fecha-se metade do covil com uma parede de pladur.

– Então tenho de encomendar isso. Preciso de mais um cheque.

– Passe lá no meu escritório e eu dou-lho. Vá mesmo por cima da ponte.

– E vou mesmo. As piranhas só chegam no fim do mês.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ visão 

sexta-feira, agosto 10, 2018

Exercícios De Discurso Político-Futebolístico

Repare no momento da aquisição em movimento lento: o prédio já estava em queda. O Ricardo Robles nem lhe tocou. É verdade que depois remodela, mas não há qualquer intenção de especular

– Sinceramente, não me parece penalty.

– Mas ainda há pouco, noutra área, considerou ilegal uma acção muito semelhante. Em Alfama não é igual?

– Não, são lances diferentes. Repare no momento da aquisição em movimento lento: o prédio já estava em queda. O Ricardo Robles nem lhe tocou. É verdade que depois remodela, mas não há qualquer intenção de especular.

– Não empurrou os inquilinos?

– Não. Há contacto, porque a actividade imobiliária é um desporto de contacto, mas tudo dentro da legalidade.

– Alguns inquilinos dizem que foram empurrados.

– Estão claramente a fazer teatro.

– Desculpe, mas parece-me que só diz isso porque o Ricardo Robles está vestido de vermelho. Se estivesse vestido de azul ou de laranja diria a mesma coisa?


– Sim, é claríssimo que não existe infracção. Um dos apartamentos era para a irmã. Só que, como a irmã afinal não regressou ao nosso país, os apartamentos foram colocados na Christie’s com o objectivo de serem vendidos para alojamento local.

– Só havia essas duas hipóteses?

– Sim. Só quem nunca jogou ao imobiliário é que pensa doutra maneira. Quem reabilita um prédio em zona histórica reserva um apartamento para a irmã, para que ela depois faça a gestão do arrendamento sensato e honesto das outras fracções. Ou então coloca o imóvel numa imobiliária de propriedades de luxo e tenta vender para alojamento local pelo quíntuplo do que o prédio custou. Não há mais nenhuma alternativa.

– Não é estranho que a irmã de Ricardo Robles invista um milhão de euros num prédio para depois vir habitar um apartamento que é menor do que uma sala?

– Sim. Gente rica faz coisas muito parvas, como aliás estamos fartos de assinalar. Mas este caso Ricardo Robles visa, no fundo, desviar as atenções de problemas que há noutros clubes, e que...

– Desculpe interromper. Dizem-me agora que Ricardo Robles acaba de se demitir.

– Sim, era inevitável. Vendo bem as imagens de outro ângulo, parece-me que o penalty é claro. Há aqui elementos que eu não tinha há dois minutos. É penalty, é. E dos graves. Ui, a maneira como ele entra a pés juntos num prédio da Segurança Social, provocando gentrificação. Isto é capaz de lesionar gravemente a cidade. Sim, sim. Penalty e vermelho directo. Sempre o disse, aliás.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ visão

quinta-feira, agosto 02, 2018

Teste De História, 8º Ano, 2071

Quais dos memes com que o Irão respondeu ao tweet de Trump podem ter precipitado a III Guerra Mundial? Na resposta, cite alguns dos memes mais engraçados.

1. Qual dos tweets do presidente americano Donald Trump lhe parece ter tido mais impacto na história do Médio Oriente? Justifique.

2. Que rumo diferente poderia o mundo ter tomado se, em vez de Twitter, Trump tivesse Instagram?

3. Faça o mesmo exercício com o Hi5.

4. Às 4h24 da manhã do dia 23 de Julho de 2018, Trump tweetou a histórica mensagem toda em maiúsculas dirigida ao presidente do Irão: “NUNCA MAIS AMEACEM OS ESTADOS UNIDOS OU SOFRERÃO CONSEQUÊNCIAS QUE POUCOS AO LONGO DA HISTÓRIA TÊM SOFRIDO”.

a) Sabendo que escrever em maiúsculas, na internet, equivale a gritar, discuta o novo modelo de política externa que passou a ser conhecido como “diplomacia de taberna”;

b) O ano de 2020 ficou marcado pelos violentos protestos de proprietários e frequentadores de tabernas, contra a designação “diplomacia de taberna”. Comente;


c) 24 horas depois de ter sido escrito, o tweet tinha 310 mil likes e 103 mil retweets. Interprete, tendo em conta que o vídeo daquela senhora que foi comprar uma máscara do Chewbacca teve três milhões de partilhas, só no Facebook;

5. Reescreva a Declaração de Independência dos Estados Unidos em tweets. Tenha o cuidado de usar maiúsculas nos tweets mais ameaçadores para o rei.

6. Quais dos memes com que o Irão respondeu ao tweet de Trump podem ter precipitado a III Guerra Mundial? Na resposta, cite alguns dos memes mais engraçados.

7. Analise a imagem ao lado, que mostra uma notícia de 2021, intitulada: “Cinco coisas que o exército americano está a fazer em Teerão. Você não vai acreditar na terceira.” Discuta a cobertura da guerra após a substituição dos jornais por sites de lifestyle. Consulte, em anexo, as notícias “Os gifs mais engraçados sobre a invasão a Mashhad” e “A internet ficou maluca com os bíceps do carrasco, protagonista desta execução.”

8. As regras do Twitter dizem especificamente que são proibidas ameaças de violência. Destaque, no manual escolar “Tweets de Donald Trump anotados e comentados”, os dois tweets do presidente americano que não violaram as regras do Twitter.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ visão

terça-feira, julho 31, 2018

Benfica sem tempo para perder tempo

Com um programa imponente para o mês de Agosto, o Benfica não tem realmente tempo para perder tempo na pré-temporada ou lá como chamam a este período estival. Por norma, a tal pré-temporada é uma fase única, amplamente consentida pelo patronato, em que os treinadores se vão dedicando a atividades de laboratório em lugares mais ou menos exóticos perante o beneplácito da imprensa, a benevolência dos adeptos e a curiosidade mórbida dos rivais. A estes luxos não se pôde entregar o Benfica este ano. Está a pouco mais de uma semana do seu primeiro jogo oficial da temporada, um desafio de importância maior - trata-se de chegar ou não chegar à fase de grupos da Liga dos Campeões - e tem por adversário o Fenerbahçe da Turquia, que não sendo, nem de perto nem de longe, um papão do continente europeu é, ainda assim, uma grande e presumível chatice.

O presidente do clube turco chama-se Ali Koç e, usando a prerrogativa do optimismo desmesurado que pertence a todos os presidentes dos clubes de futebol, chamou alegremente à atenção para o facto de "este Benfica" que lhes saiu na rifa já não ser "o velho Benfica". Foi assim que foi entendido por cá, como uma provocaçãozinha, o seu discurso. Mas mal. Não quis o presidente do Fenerbahçe menorizar as capacidades do Benfica, com que se irá brevemente encontrar, só pelo prazer da picardia. O senhor Koç referia-se, e com carradas de razão, ao "velho Benfica" de Shéu, de Nené e Jordão que pespegou 7 golos ao Fenerbahçe numa inspirada quarta-feira europeia do distantíssimo ano de 1975, cabazada essa que, ainda hoje, deve provocar uma comoção, para não lhe chamar trauma, aos numerosos adeptos daquele emblema da cidade de Istambul. A cada um o seu Celta de Vigo.

Destinava-se, assim, a consumo interno a comparação deste Benfica - que não pespegará 7-0 a este Fenerbahçe - com o Benfica de há 43 anos que cometeu precisamente essa proeza. O senhor Koç falava para "dentro" do seu clube mas a verdade é que foram igualmente as suas considerações muito apreciadas no Estádio da Luz, não por reconhecimento da homenagem implícita a Shéu, Nené e Jordão, mas porque uma alfinetada destas, mesmo involuntária, espicaça sempre a equipa e sabe-se como é importante ter a equipa espicaçada nas grandes ocasiões. E nas pequenas também. Por vezes, há presidentes que julgando estar a falar para dentro dos seus clubes nem imaginam como estão, de facto, a falar para fora e com que impacto.

O próprio presidente do Benfica falando esta semana em Newark para uma plateia de benfiquistas afirmou ser o Benfica não um grande clube "mas um gigante". Falava para dentro do Benfica ou falava para fora do Benfica, Luís Filipe Vieira? Na realidade, falou exclusivamente para fora e não foi pelos motivos mais piedosos. Um gigante, pois… Fora, uma coisa destas irrita. Dentro, nem é preciso dizer, já toda a gente sabe disso há séculos.



Fonte: Leonor Pinhão @ record

quinta-feira, julho 26, 2018

Paióis De Roçarem Ânsias Pela Minha Alma Em Ouro

Um aviãozinho militar atirou uma bomba ao ar. A que terra foi parar?” Esta pergunta tem sido feita vezes sem conta, mas não conheço quem saiba a resposta. Creio que este é o maior e mais antigo mistério militar português, seguido de muito perto pelo de Tancos. É possível que a bomba que o aviãozinho militar atirou ao ar tenha ido parar a Tancos, e é por isso que ninguém sabe dela. Talvez tenha sido roubada, ou mal inventariada, ou esteja esquecida por trás de algum caixote.

O caso de Tancos teve o grande mérito de introduzir na discussão pública a bonita palavra paiol, no plural: paióis. As rondas aos paióis, o assalto aos paióis, a visita do presidente aos paióis. Todos os apreciadores de poesia se lembraram imediatamente do segundo poema das Impressões do Crepúsculo, de Fernando Pessoa, que começa com a palavra “pauis” e fundou a corrente literária conhecida por paulismo. A minha proposta é o lançamento de um movimento estético parecido, chamado paiolismo. É inspirado no assalto aos paióis, evidentemente. E consegue agrupar várias características da portugalidade, como o absurdo quotidiano, a desorganização e a irresponsabilidade.


Para compreender o paiolismo é necessário fazer uma breve cronologia dos acontecimentos: primeiro, os paióis foram assaltados. Depois, ninguém sabia dizer exactamente o que é que tinha sido levado. A seguir, o ministro Azeredo Lopes (um extraordinário paiolista) disse que, “no limite, podia não ter havido furto nenhum”. Um mês depois de o ministro ter colocado a hipótese de não ter havido crime, os criminosos devolveram o material furtado. Duas semanas depois da devolução, descobriu-se que os ladrões tinham devolvido material a mais. Esta semana, soube-se que afinal devolveram material a menos. É muito provável que a história continue a desenrolar-se, até porque há várias teorias. Cada país tem o JFK que merece, e este é o nosso. 
Os americanos prenderam um homem que, ao que parece, não tinha nada a ver com o caso; nós optamos por não prender ninguém. Entre o método americano e o português, prefiro o nosso. Um inocente na cadeia é uma barbaridade. E, no nosso país, há dez milhões de inocentes. Meter-nos a todos na cadeia, além de bárbaro, é impossível



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ visão