terça-feira, julho 31, 2018

Benfica sem tempo para perder tempo

Com um programa imponente para o mês de Agosto, o Benfica não tem realmente tempo para perder tempo na pré-temporada ou lá como chamam a este período estival. Por norma, a tal pré-temporada é uma fase única, amplamente consentida pelo patronato, em que os treinadores se vão dedicando a atividades de laboratório em lugares mais ou menos exóticos perante o beneplácito da imprensa, a benevolência dos adeptos e a curiosidade mórbida dos rivais. A estes luxos não se pôde entregar o Benfica este ano. Está a pouco mais de uma semana do seu primeiro jogo oficial da temporada, um desafio de importância maior - trata-se de chegar ou não chegar à fase de grupos da Liga dos Campeões - e tem por adversário o Fenerbahçe da Turquia, que não sendo, nem de perto nem de longe, um papão do continente europeu é, ainda assim, uma grande e presumível chatice.

O presidente do clube turco chama-se Ali Koç e, usando a prerrogativa do optimismo desmesurado que pertence a todos os presidentes dos clubes de futebol, chamou alegremente à atenção para o facto de "este Benfica" que lhes saiu na rifa já não ser "o velho Benfica". Foi assim que foi entendido por cá, como uma provocaçãozinha, o seu discurso. Mas mal. Não quis o presidente do Fenerbahçe menorizar as capacidades do Benfica, com que se irá brevemente encontrar, só pelo prazer da picardia. O senhor Koç referia-se, e com carradas de razão, ao "velho Benfica" de Shéu, de Nené e Jordão que pespegou 7 golos ao Fenerbahçe numa inspirada quarta-feira europeia do distantíssimo ano de 1975, cabazada essa que, ainda hoje, deve provocar uma comoção, para não lhe chamar trauma, aos numerosos adeptos daquele emblema da cidade de Istambul. A cada um o seu Celta de Vigo.

Destinava-se, assim, a consumo interno a comparação deste Benfica - que não pespegará 7-0 a este Fenerbahçe - com o Benfica de há 43 anos que cometeu precisamente essa proeza. O senhor Koç falava para "dentro" do seu clube mas a verdade é que foram igualmente as suas considerações muito apreciadas no Estádio da Luz, não por reconhecimento da homenagem implícita a Shéu, Nené e Jordão, mas porque uma alfinetada destas, mesmo involuntária, espicaça sempre a equipa e sabe-se como é importante ter a equipa espicaçada nas grandes ocasiões. E nas pequenas também. Por vezes, há presidentes que julgando estar a falar para dentro dos seus clubes nem imaginam como estão, de facto, a falar para fora e com que impacto.

O próprio presidente do Benfica falando esta semana em Newark para uma plateia de benfiquistas afirmou ser o Benfica não um grande clube "mas um gigante". Falava para dentro do Benfica ou falava para fora do Benfica, Luís Filipe Vieira? Na realidade, falou exclusivamente para fora e não foi pelos motivos mais piedosos. Um gigante, pois… Fora, uma coisa destas irrita. Dentro, nem é preciso dizer, já toda a gente sabe disso há séculos.



Fonte: Leonor Pinhão @ record

quinta-feira, julho 26, 2018

Paióis De Roçarem Ânsias Pela Minha Alma Em Ouro

Um aviãozinho militar atirou uma bomba ao ar. A que terra foi parar?” Esta pergunta tem sido feita vezes sem conta, mas não conheço quem saiba a resposta. Creio que este é o maior e mais antigo mistério militar português, seguido de muito perto pelo de Tancos. É possível que a bomba que o aviãozinho militar atirou ao ar tenha ido parar a Tancos, e é por isso que ninguém sabe dela. Talvez tenha sido roubada, ou mal inventariada, ou esteja esquecida por trás de algum caixote.

O caso de Tancos teve o grande mérito de introduzir na discussão pública a bonita palavra paiol, no plural: paióis. As rondas aos paióis, o assalto aos paióis, a visita do presidente aos paióis. Todos os apreciadores de poesia se lembraram imediatamente do segundo poema das Impressões do Crepúsculo, de Fernando Pessoa, que começa com a palavra “pauis” e fundou a corrente literária conhecida por paulismo. A minha proposta é o lançamento de um movimento estético parecido, chamado paiolismo. É inspirado no assalto aos paióis, evidentemente. E consegue agrupar várias características da portugalidade, como o absurdo quotidiano, a desorganização e a irresponsabilidade.


Para compreender o paiolismo é necessário fazer uma breve cronologia dos acontecimentos: primeiro, os paióis foram assaltados. Depois, ninguém sabia dizer exactamente o que é que tinha sido levado. A seguir, o ministro Azeredo Lopes (um extraordinário paiolista) disse que, “no limite, podia não ter havido furto nenhum”. Um mês depois de o ministro ter colocado a hipótese de não ter havido crime, os criminosos devolveram o material furtado. Duas semanas depois da devolução, descobriu-se que os ladrões tinham devolvido material a mais. Esta semana, soube-se que afinal devolveram material a menos. É muito provável que a história continue a desenrolar-se, até porque há várias teorias. Cada país tem o JFK que merece, e este é o nosso. 
Os americanos prenderam um homem que, ao que parece, não tinha nada a ver com o caso; nós optamos por não prender ninguém. Entre o método americano e o português, prefiro o nosso. Um inocente na cadeia é uma barbaridade. E, no nosso país, há dez milhões de inocentes. Meter-nos a todos na cadeia, além de bárbaro, é impossível



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ visão

sábado, julho 21, 2018

Desporto de fim de semana - 2018/07/21

Futebol
Sábado, 2018/07/21
 - 15:05 - Bayern München -v- Paris SG - International Champions Cup 2018 (SportTv2)
 - 16:30 - Valencia -v- Galatasaray - Pré-Época 2018/19 (SportTv3)
 - 17:05 - Sevilla -v- Benfica - Pré-Época 2018/19 (SportTv1)

Domingo, 2018/07/22
 - 01:00 - São Paulo -v- Corinthians - Brasileirão 2018 (PFC)
 - 16:30 - Portugal -v- Finlândia - Euro U19 2018 (SportTv1)
 - 21:05 - Liverpool -v- Borussia Dortmund - International Champions Cup 2018 (SportTv2)

Terça-feira, 2018/07/24
 - 17:30 - Valencia -v- Lausanne-Sport - Pré-Época 2018/19 (SportTv3)

Quinta-feira, 2018/07/26
 - 00:05 - Juventus -v- Bayern München - International Champions Cup 2018 (SportTv2)
 - 01:05 - Borussia Dortmund -v- Benfica - International Champions Cup 2018 (SportTv1)
 - 01:05 - Manchester City -v- Liverpool - International Champions Cup 2018 (SportTv3)
 - 03:05 - Roma -v- Tottenham - International Champions Cup 2018 (SportTv2)
 - 04:05 - Milan -v- Manchester United - International Champions Cup 2018 (SportTv3)
 - 12:35 - Atlético Madrid -v- Arsenal - International Champions Cup 2018 (SportTv2)


Formula 1
Domingo, 2018/07/22
 - 13:00 - Alemanha - Hockenheim

quinta-feira, julho 19, 2018

Terrorismo sério e responsável

Quando se soube que o Al Shabaab, um grupo terrorista ligado à al-Qaeda, tinha proibido os sacos de plástico por serem perigosos para a humanidade, muita gente riu: assassinam pessoas e preocupam-se com a humanidade? Ora, a pergunta não faz sentido. Primeiro, é bastante frequente que indivíduos muito bem-intencionados proponham soluções grotescas, restrições da liberdade, homicídios. É precisamente por serem tão bonzinhos que se acham no direito de proibir, prender e matar. Em segundo lugar, não há nenhuma contradição entre odiar pessoas e amar a humanidade. São entidades diferentes. Pelas minhas contas, temos: pessoas, gente, povo e humanidade. O pior são as pessoas, claro, e o melhor é a humanidade.

As pessoas não fazem pisca no trânsito; a humanidade foi à Lua. A humanidade é tão digna que, muitas vezes, aparece grafada com h grande: a Humanidade. Isso nunca aconteceu às pessoas, e bem. Não faz sentido escrever que as Pessoas deitam lixo no chão (coisa que a Humanidade, aliás, nunca faria). As pessoas raramente merecem a honra da maiúscula. Em geral, são referidas no fim da conversa, em tom de lamento: “realmente, as pessoas…”, e sempre com p pequeno.

A gente talvez esteja num patamar acima, mas não muito. Há gente muito estúpida. O que é normal, dado que a gente costuma ser formada por muitas pessoas. Mas, apesar de tudo, às vezes é possível confiar na gente, e integrá-la para fazer coisas giras. Por exemplo, determinada festa foi muito divertida, porque estava lá muita gente. Pena que duas ou três pessoas tenham estragado tudo. É sempre assim: as pessoas dão cabo da vida da gente.

O povo já é outra coisa. Dedica-se sobretudo à política, e com uma nobreza que falta claramente às pessoas. Os políticos, infelizmente, são, em geral, pessoas. O povo, que é sábio, vota neles, mas apenas porque não tem alternativa. Pudesse o povo votar no povo e as nações, verdadeiramente governadas pelos povos, prosperariam. No entanto, o povo não tem outro remédio senão votar em pessoas, com os resultados que todos conhecemos.


Não surpreende, por isso, que a Humanidade seja capaz de tantas e tão grandes façanhas: ela é formada pelo conjunto dos povos. Quando os povos se juntam para criar a Humanidade, aliam a excelência de cada um à dos outros, e o resultado é uma entidade que consegue atingir cumes da civilização, como as vacinas, a conquista do espaço e o gin tónico.

Falta descobrir o essencial: em que ponto passam as pessoas a ser gente – e, sobretudo, quando é que a gente se transforma em povo e Humanidade. Esse momento tem de ser identificado e estudado na escola. Deve ser uma delícia andar de autocarro com a Humanidade, aguardar na fila do supermercado atrás da Humanidade, ir à bola na companhia da Humanidade. Fazer tudo isso com pessoas é quase sempre chato, e muitas vezes perigoso.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ visão

Se houver traças a Croácia será Campeã do Mundo

Amanhã haverá um novo campeão do mundo. A França é favorita. Os franceses já conquistaram títulos mundiais e europeus e a selecção da Croácia nunca ganhou nada de jeito. Por isso mesmo, neste altíssimo patamar a que chegaram, manda o bom senso não esperar por surpresas nem, muito menos, por anedotas. Este Mundial da Rússia até teve as suas graças como a saída rápida dos alemães pela porta dos fundos ou a cruelíssima contabilização do tempo que Neymar passou deitado na relva. Mas o que importa é saber se hoje, pelo final da tarde, terão conseguido os croatas fazer em Moscovo o mesmo que os portugueses fizeram há dois anos em Paris perante uma França também favorita até doer. Pode acontecer. Se Modric se magoar e abandonar o campo antes do primeiro quarto-de-hora do jogo não sem que antes uma traça tenha pousado amorosamente numa sobrancelha do próximo melhor jogador do mundo, então teremos uma grande, grande surpresa no Estádio Lujniki em Moscovo. Venham as traças!

O próximo campeonato – aquilo que verdadeiramente a todos interessa – sofreu uma partida em falso. Coisa nunca vista no nosso futebol que, praticamente, já viu de tudo. O primeiro desenho do calendário da prova viu-se deitado ao lixo em função de uma disfunção operacional. Um erro humano na leitura dos números, coisa que a qualquer um pode acontecer ou já ter acontecido, invalidou o que a sorte tinha ditado a todos os concorrentes no sorteio original obrigando a uma segunda tômbola e a um segundo calendário, forçosamente diferente, que foi o que ficou a valer. No calendário errado havia "derby" em Alvalade à 3.ª ronda e no calendário da rifa certa há "derby" na Luz à 3.ª jornada. Ninguém pode adivinhar o que de inovador poderia ter calhado na 3.ª jornada, em termos da Segunda Circular, se os erros de leitura tivessem persistido e houvesse necessidade de um terceiro sorteio… Mas factos são factos e, assim, fica o Benfica a saber que recebe o velho rival entre dois jogos de qualificação para a Liga dos Campeões e fica o Sporting a saber que terá de visitar a casa do rival de sempre nas vésperas do acto eleitoral apontado para 8 de Setembro. Venha o diabo e escolha.

Como nunca mais ninguém lhe louvou o "comportamento ético" desde que as escutas do Apito Dourado viraram um sucesso, o presidente do FC Porto elogiou-se agora a si próprio numa publicação interna do clube a que preside exaltando, justamente, o seu "comportamento ético" face ao momento vivido pelo Sporting. Fez, no entanto, uma distinção preciosa ao nomear as pessoas do Sporting a quem telefonou para, sob "palavra de honra", garantir que não contrataria nenhum dos trânsfugas. Pinto da Costa referiu-se a Bruno de Carvalho diplomaticamente por "presidente" mas para José Maria Ricciardi e para, Eduardo Barroso, num registo mais intimista, empregou os termos "amigos" e "distintos". Que maldade.



Fonte: Leonor Pinhão @ record

sábado, julho 14, 2018

Fernando Madonna

A minha posição relativamente aos lugares de estacionamento da Madonna é a seguinte: eu levo a mal ter de tomar posição relativamente aos lugares de estacionamento da Madonna. Tenho assistido, com grande sonolência, ao debate. Há chamadas de primeira página nos jornais, intervenções dos partidos, colunas de opinião, revelação de documentos – sobre lugares de estacionamento. Viaturas, e tal. Que ocupam determinada área de metragem quadrada. A problemática do estacionamento é capaz de ser o assunto de conversa mais pequeno e aborrecido da História das Conversas. Mesmo no âmbito do tema geral da circulação rodoviária, ele mesmo um pináculo de chatice, o estacionamento consegue guindar-se ao zingamocho da estopada.

A minha irritação tem dois grandes responsáveis: Medina e Madonna. É por causa deles que estamos há uma semana a discutir estacionamentos. Medina, que já tinha ido ao Ritz dar as boas-vindas a Madonna, está agora preocupado com o sítio onde ela parqueia. Todas as pequenas necessidades de Madonna, Medina supre. E supre pressuroso. 
Ao mesmo tempo que atravanca o trânsito dos 
outros 500 mil munícipes, resolve os problemas 
de circulação de uma.

Mas é em relação a Madonna que tenho o ressentimento mais fundo. Já houve um tempo em que discutíamos com gosto o encontro feliz da Madonna com o sistema rodoviário. Aquela foto de Steven Meisel, em que ela pede boleia na berma da estrada, toda nua só com saltos altos e uma malinha, proporcionou-me horas de gostosa reflexão. Mas esta questão do estacionamento é – não há outra forma de o descrever – pelintrice milionária. Madonna deve dar-se ao respeito. Como mãe de um jogador das camadas jovens do Benfica, tem uma imagem a proteger.


Pedinchar lugares de estacionamento à câmara municipal é uma conduta imprópria dos muito ricos. A parte boa de ter dinheiro é, precisamente, não precisar de pedir favores ao presidente da câmara. Comprar uma frota de 15 carros e depois precisar de ajuda para os estacionar é incongruente: ou bem que se é excêntrico, ou bem que se é mesquinho. A grande vantagem de ter Madonna a viver em Portugal 
é, ao que nos dizem, o prestígio associado ao facto de uma grande vedeta escolher o nosso país para morar. Mas então comporte-se como grande vedeta. Se tem 15 carros, contrate 15 motoristas que os mantenham a circular à volta do palácio, até ter necessidade de se meter num deles para ir ao pão. Coisas 
de grande vedeta. Uma estrela pop a sério teria 
comprado os paços do concelho e estacionado os carros no gabinete do Medina



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ visão

terça-feira, julho 10, 2018

Os rapazes, os passarinhos e o idiota da aldeia

O Estádio da Luz abre hoje as portas para que os adeptos assistam livremente a uma sessão de trabalho da equipa principal de futebol. São de esperar uns quantos milhares movidos pela volúpia de retomar o contacto com aquilo que verdadeiramente os faz vibrar: a bola. Começa, assim, em termos públicos a temporada de 2018/2019 sucessora de uma temporada a todos os títulos medíocre em função das expectativas naturalmente criadas com o desempenho mais do que eficiente de uma equipa que desafiou a História conquistando quatro títulos nacionais consecutivos entre 2013 e 2017. O Benfica contratou neste defeso muita gente que se adivinha importante mas o frenesi maior nas bancadas será o da avaliação "in loco" dos jovens produtos da casa como João Félix ou Gedson Fernandes. São estes jogadores, agora inseridos num ambiente de adultos, que toda a gente vai querer ver hoje em acção na Luz. Em acção hoje e amanhã e depois… porque grande desgosto seria ver Félix e Gedson vendidos aos alegados "tubarões" que os cobiçam no mercados deste Verão antes de os ver dar uns pontapés oficialmente na bola ao serviço de quem os formou.
A meia-dúzia de visitas da Polícia Judiciária ao Estádio da Luz não afastou o patrocinador principal do futebol – a Fly Emirates – da órbita do Benfica. Ora aqui está uma excelente notícia. E, porventura, inesperada.

Divulgadas pela Liga de Clubes, as matérias "condicionantes" do sorteio do próximo campeonato nacional não desdenham a possibilidade de haver dérbis ou clássicos nas primeiras três jornadas da prova. Por um lado é aceitável porque os sorteios querem-se livres como os passarinhos. Por outro lado é inaceitável porque, ao contrário das justas benevolências concedidas na época passada ao Sporting por força da sua participação na fase de apuramento para a Liga dos Campeões, não haverá este ano a menor benevolência no que respeita ao calendário do Benfica no exigentíssimo mês de Agosto que se adivinha. Não é de crer que a Liga não considere de "interesse nacional" uma eventual qualificação do Benfica para a prova mais importante de clubes a nível continental tal como considerou no ano passado quando tratou de proporcionar a um outro emblema as melhores condições de acesso ao mais alto patamar do futebol europeu. E o Benfica, o que tem a dizer a isto? Passarinhos?

"O drama da internet é que promoveu o idiota da aldeia a figura nacional", explicou, muito bem explicado, o escritor e filósofo italiano Umberto Eco numa das suas derradeiras aparições públicas. Eco preocupava-se com "a legião de imbecis" que "antigamente eram imediatamente calados" e que agora "têm o mesmo direito à palavra do que um Prémio Nobel". Vêm estas sábias reflexões a propósito de outras sobre o mesmo tema com que se têm justificado recentemente os clamorosos idiotas da aldeia do futebol em Portugal.



Fonte: Leonor Pinhão @ record

José Maria Pincel: Subsídios para uma biografia

A presença de José Maria Pincel no espaço público português é tão intensa quanto misteriosa. A frequência com que se invoca o seu nome, quase sempre com feia altivez, assinala uma contradição incontestável: José Maria Pincel é, muitas vezes, o símbolo do anonimato – e, no entanto, é um dos nomes mais famosos de Portugal. “Então mas agora qualquer Zé Maria Pincel chega a deputado?”, costuma ouvir-se – e afirmações deste tipo contêm, pelo menos, três erros. O primeiro é, como já vimos, que, à força de repetição, o nome de José Maria Pincel ganhou uma proeminência que o desqualifica para designar gente anónima.

O segundo erro é que, neste e noutros casos, José Maria Pincel aparece não apenas como um anónimo, mas também como um borra-botas. Ora, sucede que José Maria Pincel é um péssimo nome para um borra-botas. Um nome vulgar, como Zé Silva, ou Zé Pereira, seria mais apropriado para designar um indivíduo, digamos, sem berço. Mas um José Maria? Note-se que não se trata de um mero Zé, como os que costumam protagonizar frases corriqueiras, a saber: “Ó Zé, 
vai buscar pão, que já não há.” De modo nenhum. Estamos perante um Zé Maria, que costuma ouvir solicitações bem diferentes, tais como: “Ó Zé Maria, venha cá dar um beijinho à tia.” Além do mais, Pincel está longe de ser um apelido banal. Antes pelo contrário, é invulgar sem ser esquisito, com uma ligação às artes que lhe dá mesmo alguma nobreza. É muito improvável, por isso, que José Maria Pincel seja uma pessoa destituída de valor. Associá-lo ao anonimato e à insignificância só pode ter sido resultado de uma vingança – que, como se vê, foi malsucedida.

O terceiro erro é o carácter radicalmente antidemocrático de qualquer declaração começada pela expressão “Então mas agora qualquer Zé Maria Pincel pode...?” Não precisamos de ouvir mais para responder afirmativamente: sim, qualquer Zé Maria Pincel pode, no nosso país, fazer o que lhe apetece. De José Maria Pincel nunca se ouviu dizer nada de desonroso. Antes pelo contrário: sabemos apenas que tem ambições, sempre legítimas, e que muitas vezes lhe são negadas sem justificação. “Não é qualquer Zé Maria Pincel que chega aqui e se senta à mesa com a gente.” Pois não sabem o que perdem, pois José Maria Pincel deve ser uma pessoa bem interessante, com muitas histórias tristes de discriminação para contar.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ visão

domingo, julho 01, 2018

A humanização de Cristiano Ronaldo

Se Cristiano Ronaldo não fosse Cristiano Ronaldo dir-se-ia, em bom futebolês, que tinha sido aquele o sujeito que "enterrou" a nossa selecção no jogo com o Irão e a fez cair para o indesejado 2.º lugar no Grupo B. Não só desperdiçou uma grande penalidade como se arriscou a ser expulso depois de uma semi-cotovelada num adversário. Essa amável agressão, em termos práticos, serviu para elevar os níveis de hostilidade do público, dos jogadores iranianos e até do árbitro e do VAR que, minutos depois, lavariam as consciências apontando uma grande penalidade bastante duvidosa contra a equipa portuguesa. Mas como Cristiano Ronaldo é Cristiano Ronaldo o que importou verdadeiramente foi que tivemos o privilégio laico de o vermos não como uma divindade mas "humanizado" pelas falhas. Hoje, no entanto, convém que se "desumanize" outra vez a partir das 7 da tarde.
Ricardo Quaresma e Carlos Queirós trocaram um chorrilho de acusações no rescaldo do jogo da última segunda-feira. Pode-se dizer que, até ao momento, foi este o único episódio folclórico da campanha corrente, o momento "tuga" da presença nacional na Rússia. E basta. Esta novela picaresca, recheada de contas antigas e de crispações modernas, teria todos os ingredientes – ódios, vinganças, baixarias – para se constituir num êxito mediático com o consequente furor de audiências a arrastar tudo e todos para uma discussão sem fim sobre os méritos e os pecados dos intervenientes. Mas não foi nada disso que se passou. A altercação entre compatriotas durou pouco mais de 24 horas e extinguiu-se com a naturalidade com que se extingue qualquer vulgar caso do dia embora, neste confronto, se registassem inúmeros elementos retóricos do tipo animalesco e de lesa-Pátria que são tão do agrado das multidões.
Poderia, de facto, a guerra Quaresma-Queirós ter obtido os favores do público para se transformar no grande entretenimento nacional merecedor de aberturas de telejornais e de programas televisivos que lhe fossem inteiramente dedicados. E teria sido assim, certamente, se não estivesse o país ainda esgotado psicologicamente com a novela anterior que se arrastou por meses e só terminou na madrugada de domingo passado no palco da Altice Arena com choros, ranger de dentes, ameaças físicas, insultos e forte presença policial. Nos tempos mais próximos e depois de uma coisa daquelas torna-se muito difícil, quase impossível, que qualquer outro dramalhão consiga agarrar a devoção dos consumidores. A desintoxicação do público vai demorar.



Fonte: Leonor Pinhão @ record

sexta-feira, junho 29, 2018

"Noção do ridículo". Brevemente na Netflix

A Netflix, uma provedora global de filmes e séries de televisão via streaming (estou a copiar da Wikipédia porque não sei descrever com rigor a actividade da Netflix e a minha imaginação nunca seria provedora de uma palavra como provedora), definiu um conjunto de regras de conduta para os seus funcionários. As regras são bastante sensatas: não estabeleça contacto físico demorado e indesejado com os seus colegas, não continue a incomodá-los se já lhe disseram que não estão interessados em si, etc. A última regra, no entanto, é: não olhe para ninguém durante mais de cinco segundos. Como a notícia saiu nos tablóides ingleses, toda a gente teve o bom senso de desconfiar. Mas, instada a comentar, a Netflix não confirmou nem desmentiu, o que costuma constituir prova de veracidade. Além disso, responsáveis da empresa acrescentaram: a questão do assédio sexual não deve ser menorizada – o que está certíssimo. Infelizmente, a melhor maneira de menorizar uma causa é ter um histérico a defendê-la.

Exprimir, sobre determinado assunto, duas ou três ideias sensatas e depois acrescentar uma ideia absolutamente ridícula diminui a importância do assunto. Foi provavelmente por isso que, a seguir a “Não matarás” e “Não roubarás”, Moisés não acrescentou aos Dez Mandamentos a ordem “Não cantarás aquela da Céline Dion em karaokes porque toda a gente esganiça na parte em que ela diz que o seu coração vai continuar e é desagradável”. O profeta percebeu que misturar coisas estúpidas com coisas sensatas retirava peso à sensatez, e por isso era melhor não introduzir regras parvas na lista. Aquilo de não cobiçar a mulher do próximo já era esticar bastante a corda.


Valeria a pena analisar a mistura especial de autoritarismo com puritanismo que faz com que alguém pense: “Isto dos olhares tem de ter regras.” A acta da reunião em que um comité de sábios definiu que um olhar de cinco segundos é aceitável e um de seis é nocivo seria um primeiro e interessante documento de estudo. Uma descrição minuciosa da logística requerida para aplicar a nova regra mereceria edição em livro: qual o rácio recomendado de Fiscais do Olhar por cada funcionário? Há regras especiais para funcionários estrábicos? Uma coisa é fixar um colega durante seis segundos com o olho bom; outra coisa é fixá-lo com o olho maroto. Por uma vez, o olho bom é mais maroto do que o olho maroto, facto que deve ser contemplado na lei. Enfim, há um longo clausulado para redigir. Ao trabalho.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ visão

sexta-feira, junho 22, 2018

Biggs Paradiso

É uma pena que Giuseppe Tornatore não tenha tido imaginação suficiente para incluir a ERC na lista de personagens do filme Cinema Paradiso. Já era tempo de as entidades reguladoras terem bons papéis no cinema, porque são personagens densas e complexas, e dariam espessura às narrativas. Em Cinema Paradiso, como é sabido, um padre submete a censura prévia os filmes que passam no cinema de um lugarejo italiano, cortando todas as cenas de beijos. Digo censura prévia porque, como infelizmente a ERC não participa no filme para orientar o espectador, a gente tem a tentação de concluir, precipitadamente, que censura é censura.

Esta semana, a ERC decidiu a favor do canal Biggs – que, como o padre de Cinema Paradiso, cortou um beijo numa série de animação. A directora do Biggs disse que o corte constituía “uma apreciação de natureza editorial, que nada tem a ver com censura” – e a ERC, pelos vistos, concordou. Como sempre que um programa é alvo de uma apreciação de natureza editorial, a minha curiosidade excitou-se. É como se costuma dizer: o fruto editorialmente apreciado é sempre o mais apetecido. Até o Marquês de Pombal, quando criou a Real Mesa Realizadora de Apreciações de Natureza Editorial, devia saber que as obras ali julgadas viriam a atrair mais atenção sobre si mesmas. Portanto, fui ver o canal Biggs. Foi tempo bem gasto. O programa em causa chama-se Sailor Moon Crystal, e conta a história de um grupo de moças que são guardiãs do universo. Há várias batalhas, explosões, bichos esquisitos, espadas que brilham, raios laser destruidores e mortes. O canal Biggs achou, no entanto, que a parte que podia perturbar o seu público juvenil era um beijo. É um beijo entre duas personagens femininas, ou seja, a matéria que costuma dar pesadelos às crianças. Quantos pais não tiveram já de consolar os filhos que acordam, de madrugada, encharcados em suor e a gritar coisas deste tipo:

– NÃO! NÃO!

– O que foi, Pedrinho? Estiveste outra vez a ver Sailor Moon Crystal?

– Sim…

– Estás com medo da vilã, a pérfida Rainha Beryl do Reino das Trevas?

– Não. Eu tolero-a bem, e à sua vontade de obter o poderoso Cristal de Prata com o fim de destruir tudo o que há de mais belo no universo.


– Então? Impressionou-te a morte da Chibiusa às mãos daquela personagem também maléfica, cujo cabelo de repente se transformou numa espécie de erva daninha que estrangulou a outra e a atirou ao chão com violência?

– Não, não. Isso foi muito giro.

– Se calhar estás perturbado com aqueles grandes planos dos olhos das personagens, típicos da animação japonesa, que transmitem uma densidade psicológica que nós não captamos, e ficamos armados em parvos a olhar para aquilo com a sensação de que é a nossa superficialidade ocidental que nos impede de perceber o que raio é que os bonecos estão a sentir durante aquele tempo todo?

– Não. Foi o beijo entre duas personagens femininas. Aquele amor abala os alicerces da minha personalidade infanto-juvenil, pois vai contra a lei de Deus. Posso jogar um pouco de Grand Theft Auto, para desanuviar? Estou a dois homicídios de obter um precioso bónus.

Estas cenas são frequentíssimas, infelizmente. Mas graças à ERC, ao canal Biggs e ao padre do Cinema Paradiso, podem finalmente acabar. Ufa. Bem-haja quem protege os nossos pequeninos do amor.



Fonte: Ricardo Araujo Pereira @ Visão

terça-feira, junho 19, 2018

Cristiano Ronaldo & mais 10

O jogo de abertura de qualquer Campeonato do Mundo é suposto constituir-se numa sensaboria medonha. Reforçando a nota, deve a partida inaugural de um acontecimento desta dimensão terminar num empate, de preferência sem golos, ou numa vitória pindérica da selecção do país anfitrião. É isto o que mandam as boas maneiras do internacionalismo. Os russos, sempre agarrados às suas manias, resolveram mandar às malvas esta bonita tradição da hospitalidade e destroçaram a equipa nacional da Arábia Saudita com uma mão cheia de golos sem resposta. E, ainda assim, com tantos golos, o jogo foi uma sensaboria. Cinco golos e um aborrecimento.

Aparentemente, um Campeonato do Mundo de futebol é para os melhores do mundo, para a elite da elite desta magnífica indústria planetária. Felizmente, há excepções para alegrar com os preciosismos das cores locais o sisudismo da presunçosa organização. Não bastava ter a Espanha despedido o seu treinador 48 horas antes do jogo de estreia (até mais ver é o cúmulo do terceiro-mundismo deste Mundial'2018) e ainda se soube que o presidente da federação saudita, o senhor Ezzat, insultou publicamente os seus jogadores depois da catástrofe inaugural com a Rússia. Imagine-se um acontecimento portentoso como este, um Mundial, a ser beliscado intelectualmente pelos desvarios de um presidente exótico ao ponto de apontar a dedo os nomes dos jogadores que mais o desapontaram em campo e ainda "os erros técnicos" gerais que conduziram à derrota. Uma coisa destas, de facto, só lá nas arábias.

Já o outro jogo do nosso grupo, entre marroquinos e iranianos, só tendo um golo, foi mais interessante do que o dos russos com os sauditas com aquele despudorado fartote de golos. Começou muito bem a selecção de Carlos Queiroz. Jogou um bocadinho menos do que o adversário mas soube atar a equipa de Marrocos e esperar pelo golpe de sorte.

"Cristiano Ronaldo & mais 10" - é uma espécie de firma - conseguiu a proeza de adiantar a equipa no marcador e depois voltou a re-adiantar a equipa no marcador e, finalmente, quando já eram os espanhóis que iam adiantados no marcador e a coisa se apresentava negra, lá voltou a firma "Cristiano Ronaldo & mais 10" a fazer das suas e a impor um empate que soube como ginjas, em função da realidade dos factos. Aliás, quer no penálti com que inaugurou a noite, quer no livre directo com que fechou a noite, Cristiano Ronaldo não precisou dos "mais 10" para nada. Fez tudo sozinho, sofreu as faltas e cobrou-as exemplarmente. Foi lindo.



Fonte: Leonor Pinhão @ record

sexta-feira, junho 15, 2018

Anúncio em português suave

Não fume. A menos que queira, claro. Se quiser, fume. Tem esse direito e ninguém deseja, de modo nenhum, restringir a sua liberdade. Portanto, pode fumar. Pode no sentido de ter essa possibilidade, não no sentido de lhe estarmos a dar permissão. Não precisa da nossa permissão para nada, como é óbvio. Só lhe sugerimos que deixe de fumar porque os cigarros fazem mal à saúde. Mas, pensando bem, é impossível que, em 2018, alguém não saiba ainda que fumar faz mal, pelo que talvez seja paternalista estar a chamar-lhe à atenção para um facto consabido. Pedimos desculpa. Vamos recomeçar.

Se conseguir, não fume. Quer dizer, é evidente que consegue, porque é forte e independente. Consegue tudo o que quiser. E era importante para nós que quisesse deixar de fumar, porque o fumo mata. Mas a culpa não é sua. É da nicotina, do benzeno, do amónio, do cianeto de hidrogénio e de outras substâncias presentes nos cigarros. Era o que faltava que a culpa de fumar fosse do fumador, só porque compra, acende e fuma os cigarros. Bom, talvez o fumador tenha um bocadinho de culpa. Mas é uma culpa muito moderada, quase inexistente. Pelo amor de Deus, não se deixe esmagar pelo peso da culpa. Por favor, não chore. É melhor tentar outra vez.

Gostaríamos que não fumasse. Mas não queremos com isto dizer que o facto de fumar nos desgosta. Não é isso. Respeitamos as suas opções, sejam elas quais forem, e não fazemos depender o nosso afecto por si do seu consumo de tabaco. Nós, aqui na Direcção-Geral de Saúde, amamos tanto a população fumadora como a não-fumadora. Não que houvesse alguma dúvida sobre isso. Queremos deixar claro que não há qualquer relação entre a capacidade de ser amado e o consumo de tabaco. Já estamos arrependidos de termos falado em amor. Dá sempre mau resultado, porque é um tema polémico. Voltemos ao início.


Com todo o respeito, pondere a hipótese de, quiçá, considerar a possibilidade de, sendo a ideia do seu agrado, deixar de fumar. Não é um pedido leviano, porque sabemos que o processo de abandonar o consumo de tabaco é extremamente complexo, doloroso e difícil. E, para falar com toda a honestidade, até tem inconvenientes. Por exemplo, ao que parece, quem deixa de fumar fica com tendência para engordar. Não que haja algum mal em ser gordo, atenção. Somos todos lindos. Especialmente os gordos. E os gordos fumadores mais ainda. Bolas. Estamos um bocadinho nervosos. Precisamos de um cigarro.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ visão

segunda-feira, junho 11, 2018

A selecção de 2018 é muito melhor do que a de 2016

Falta uma semana para o arranque do Mundial e o jogo com a Argélia foi excelente para desfazer dúvidas. Há muito que não se via uma exibição tão esclarecedora da nossa selecção e logo em vésperas de um importante torneio, quando é normalíssimo haver montanhas de incertezas na cabeça dos adeptos e também, haja respeito, na cabeça do seleccionador. Isto de ter de escolher 11 entre 23 jogadores é um quebra-cabeças. É verdade que a selecção argelina não é grande espingarda, mas não foram apenas as suas insuficiências que autorizaram Bruno Fernandes, Gonçalo Guedes e Bernardo Silva a desfazer todas as dúvidas sobre quem devem ser os titulares das posições em que se exibiram no Estádio da Luz naquele que foi o jogo de despedida da Selecção antes da partida para a Rússia. 

Houve ocasiões em que Fernandes, Guedes e Silva até exageraram. Já estava toda a gente mais do que convencida de que aqueles três tinham, como se costuma dizer, "agarrado o lugar", e eles, estilhaçadas as dúvidas, continuavam a elevar a sua arte e as suas eficácias a um patamar francamente indecoroso. Por causa destes (e também por causa de outros) é que a selecção portuguesa de 2018 é muito melhor do que a selecção de 2016 que, há dois anos, conquistou em França o título de campeã da Europa. O facto de ser muito melhor não significa que tenha a obrigação de vencer o Mundial nem de andar lá perto. Não, nada disso. Um Campeonato do Mundo não é um Campeonato da Europa. Graças ao progresso da ciência, é certo que Cristiano Ronaldo está cada vez mais novo e também é verdade que esta nova vaga de jogadores portugueses se apresenta como empolgante, mas nada garantirá na Rússia a sequência de golpes de sorte que pautou a caminhada portuguesa até ao tal título continental naquela noite parisiense. Uma coisa dessas não volta a acontecer. É pena.

As claques não fazem falta nos estádios de futebol, como se viu anteontem na Luz. Casa cheia, apoio incondicional, público comum. Os que dizem que as claques fazem falta porque dão mais alegria às bancadas e mais cor e cânticos ao espectáculo, não sabem do que estão a falar. Por claques entenda-se, obviamente, grupos de desordeiros protegidos pelo colapso do Estado e pelas pessoas que dizem que as claques fazem muita falta ao futebol.

O líder (ou ex-líder, tanto faz) da claque entrou ontem no tribunal algemado, com as mãos atrás das costas e arrastado pelo braço, sem-cerimónia, por um polícia. Imagine-se, um polícia a faltar ao respeito a um líder de uma claque e em público. Que problema tremendo. Nestes casos, no entanto, é bem melhor ser polícia do que ser jogador. Um jogador ainda bem recentemente foi admoestado pelo patrão por ter desconsiderado em público um VIP do hooliganismo: "Por que fizeste aquilo ao chefe da claque? Agora tenho um problema tremendo…" Já não há respeito."



Fonte: Leonor Pinhão @ record

domingo, junho 10, 2018

O Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas

O Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas celebra a data de 10 de Junho de 1580, data da morte de Camões,



O Hino Nacional é A Portuguesa.



I
Heróis do mar, nobre povo,
Nação valente, imortal,
Levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal!
Entre as brumas da memória,
Ó Pátria sente-se a voz
Dos teus egrégios avós,
Que há-de guiar-te à vitória!

Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar!
Contra os canhões
marchar, marchar!


II
Desfralda a invicta bandeira
À luz viva do teu céu!
Brade a Europa à terra inteira:
Portugal não pereceu
Beija o solo teu jucundo
O oceano, a rugir d'amor,
E o teu braço vencedor
Deu novos mundos ao Mundo!

Às armas, às armas!
Sobre a terra e sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar!
Contra os canhões
marchar, marchar!


III
Saudai o Sol que desponta
Sobre um ridente porvir;
Seja o eco de uma afronta
O sinal de ressurgir.
Raios dessa aurora forte
São como beijos de mãe,
Que nos guardam, nos sustêm,
Contra as injúrias da sorte.

Às armas, às armas!
Sobre a terra e sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar!
Contra os canhões
marchar, marchar!



Letra: Henrique Lopes de Mendonça
Música: Alfredo Keil
Data: 1890

sábado, junho 09, 2018

Taxarei até que o orçamento me doa

Quando se soube que o preço dos combustíveis ia subir pela décima semana consecutiva, maldisse os cientistas. Pessoas menos sofisticadas maldizem o Governo, mas eu tento que as minhas rabugices sejam modernas e elevadas. Claro que, de acordo com gente que fez contas, mais de metade do preço do combustível são impostos. O meu carro, neste momento, está a gastar 10 euros de impostos aos 100. Em gasolina propriamente dita gasta apenas 6 euros. E isso enerva, com certeza. Mas é importante não esquecer que, com o dinheiro dos impostos, o Governo constrói, por exemplo, estradas. Estradas essas que, aliás, estão em óptimo estado, uma vez que ninguém tem dinheiro para andar nelas, dado o preço dos combustíveis. Ou seja, os impostos sobre os combustíveis contribuem ao mesmo tempo para a construção de estradas e para a sua manutenção.

É por isto que, na minha opinião, a ira deve ser dirigida contra os cientistas. Ninguém poderia imaginar que a Ciência se dedicasse a inventar o carro sem condutor antes do carro sem combustível. Como nunca ninguém se queixou do preço dos condutores, esperava-se que os cientistas atacassem o problema que afligia verdadeiramente as pessoas e inventassem um veículo movido a energia barata ou até gratuita. Os autores de ficção científica indicaram a prioridade com toda a clareza. Nos filmes da série Regresso ao Futuro, o professor que inventa a máquina do tempo concebe um carro movido a lixo. Os espectadores ficaram moderadamente impressionados com a hipótese de viajar no tempo, mas a ideia de ter um carro cujo combustível são cascas de banana e latas de refrigerantes vazias comoveu plateias em todo o mundo. Que o carro pudesse conduzir-se sozinho, no entanto, não passou pela cabeça de ninguém. Ora, o certo é que, em 2018, temos carros que andam sozinhos, mas continuam a necessitar de combustível. Entre o ser humano e o gasóleo, os cientistas decidiram que o mais urgente era dispensar o primeiro.


Em abono dos cientistas, deve dizer-se que a inexistência de gasolina não implicaria a inexistência de impostos. Creio que Mário Centeno teria talento suficiente para inventar um imposto sobre cascas de banana. E um imposto sobre esse mesmo imposto, justificado pelo facto de ser justo taxar quem se deixa taxar por lixo. E assim sucessivamente até à Taxa sobre o Dinheiro que Escapou às Outras Taxas – que, não tenho dúvidas, será criada em breve.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ visão

domingo, junho 03, 2018

Morfologia do repúdio: um estudo

Sempre que um acontecimento repudiável ocorre, podemos ter a certeza de que ninguém vai perder a oportunidade de o repudiar. Há três grandes tipos de repúdio: o repúdio simples, o veemente repúdio e o vivo repúdio. Existem ainda subcategorias de repúdio, como o repúdio veemente, que opera a troca do substantivo pelo adjectivo (o que raramente ou nunca sucede com o vivo repúdio: não registámos qualquer ocorrência de um repúdio vivo), e o mais veemente repúdio (ou o mais vivo repúdio), quando se trata de um repúdio verdadeiramente superlativo.

Uma análise aos repúdios manifestados a propósito da invasão ao centro de treinos do Sporting, em Alcochete, revela que o acontecimento foi repudiado de uma forma bastante variada. O Governo foi o primeiro a repudiar, por intermédio do secretário de Estado da Juventude e do Desporto, que exprimiu “repúdio veemente”. O Sporting repudiou pouco depois, anunciando em comunicado que repudiava “de forma veemente”. São dois repúdios muito semelhantes, simples e dignos, que devem a sua simplicidade ao facto de terem sido proferidos em primeiro lugar.


Quanto mais tempo passa desde o acontecimento repudiável, mais dramática tem de ser a manifestação de repúdio. A Holdimo e a Associação de Treinadores, mais lentas a repudiar do que o Governo e o Sporting, viram-se forçadas a exprimir “o seu mais veemente repúdio”. Esta formulação indica que ambas as instituições são capazes de outros repúdios, não tão veementes, mas para esta situação reservaram o seu mais veemente repúdio. A Federação Portuguesa de Futebol, provavelmente sentindo-se ferida no orgulho repudiador, avançou então com uma declaração de repúdio parecida, que continha uma diferença subtil mas significativa: anunciou que os actos mereciam “o mais veemente repúdio”. Uma coisa é comunicar o seu mais veemente repúdio, como fizeram a Holdimo e a Associação de Treinadores; outra é transmitir o mais veemente repúdio. Não é apenas o seu mais veemente repúdio: é, subentende-se, o mais veemente de todos os veementes repúdios manifestados até ali. Custa a crer que o secretário de Estado não tenha sido demitido na hora, depois de se ter deixado ultrapassar, tanto em veemência como em repúdio, pela FPF. O presidente do núcleo do Sporting da Madeira, Duarte Agrela, exprimiu um bastante inovador “total repúdio”. Evitando o campeonato da veemência (que naquela altura era liderado pela FPF, com o Governo numa desonrosa última posição), Agrela preferiu, e bem, concentrar-se no repúdio – que, no seu caso, era total.Um justo remoque a todos os que, privilegiando a veemência, corriam o risco de apresentar repúdios bastante veementes mas parciais. Pela minha parte, aproveito para manifestar agora o mais vivo, mais veemente e mais total repúdio.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ visão

Difícil aceitar tão clamorosa distracção

O mais surpreendente é tudo isto ser uma surpresa para muita gente. É difícil aceitar tão clamorosa distracção. Se, por absurdo, considerarmos a gerência do actual presidente como uma sucessão de cinco temporadas de um "reality show", são claros, desde os episódios iniciais da 1.ª temporada, os múltiplos indícios que haveriam de conduzir ao desfecho patente nestes derradeiros episódios da 5.ª temporada. Como diriam os americanos desta nobre indústria, utilizando o jargão do sector, este só pode ter sido o melhor "season final" de sempre na história do entretenimento em directo e "ao vivo". De tão bem iludido que estava, o público não se deu conta de nada. Só por isso se explica como ficou positivamente atónito com o evoluir dos acontecimentos. Agora, que está desfeito o mistério, a coisa irá lentamente deixando de ter interesse e dúvidas há se haverá sexta temporada. Mas nesta vida não se pode ter certezas.

Uma vez mais, durou pouco o mal-estar do Benfica nas manchetes dos jornais. A rescisão de contrato do capitão da equipa rival apoderou-se hegemonicamente dos dias. De facto, o caso não é de somenos. Embora para os benfiquistas fosse óbvio que todo aquele noticiário impiedosamente comprometedor sobre o tal jogo no Funchal não passava de uma manobra do inimigo para tentar abafar o que de verdadeiramente importante vinha a caminho. É esta a maneira de ser dos adeptos de futebol de todas as cores, acreditam em tudo que lhes conceda vantagem – qualquer espécie de vantagem – e não acreditam em nada que lhes seja desagradável ouvir. Chega de filosofias.
- O Benfica tem dois traumas, o Vale e Azevedo e o Jorge Jesus – disse o presidente rival (em exercício) na televisão há três temporadas atrás. Depois tentou desenvolver a sua ideia mas explanou-a com pouco detalhe.
Ora, uma coisa destas não vos deu logo que pensar? Não, aparentemente não.

Reveladas na carta de rescisão do capitão da equipa, as admoestações do presidente aos jogadores por desrespeitarem a claque chocaram a grande maioria do público porque, na realidade, não passa pela cabeça de ninguém que situações destas possam ocorrer mesmo num "reality show". Quando o presidente pergunta a um jogador "porque fizeste aquilo ao chefe da claque? Logo a ele, tenho um problema tremendo, estiveram a ligar-me a noite toda, todos os gajos da claque, a dizer que te queriam apanhar, que queriam a tua morada..." está-se logo a ver que quem tem um "problema tremendo" não é o presidente, é o clube. Mas ninguém viu problema algum quando, numa das primeiras temporadas, o presidente encabeçou uma marcha conduzindo os prosélitos em direção a um estabelecimento de comida rápida numa bomba de gasolina. Os motivos não foram apurados. Nem nunca mais se falou no assunto. Foi pena. Ter-se-ia poupado, talvez, o desesperado apelo "às autoridades públicas" com que ontem presidente da mesa da assembleia geral confessou, também ele, a sua estupefacção.



Fonte: Leonor Pinhão @ record

A sedução do nojo

A extraordinária popularidade da palavra nojo no debate público português só tem duas explicações possíveis: ou Portugal está cada vez mais nojento ou os intervenientes no debate têm um vocabulário cada vez menos vasto. Inclino-me para a segunda hipótese. Portugal tem muitos defeitos, mas (mesmo sem estar na posse de dados do INE) parece-me que se tem mantido relativamente estável em termos de nojo – o que contrasta com a cada vez maior frequência com que se assinala a ocorrência de múltiplos nojos: a divulgação de certos vídeos é um nojo; determinado artigo de jornal é um nojo; esta opinião é um nojo; aquela gente mete nojo; essa pergunta é um completo nojo. A discussão decorre, pelos vistos, numa pocilga argumentativa e o objectivo é ser o primeiro a apontar o nojo da posição do adversário. A grande vantagem deste modelo é a rapidez. Não é preciso aperfeiçoar argumentos e debater: não se discute com o nojo. Há a nossa opinião e o resto é nojo. Quem decreta nojo encontra-se numa imbatível posição de superioridade moral: é, ao mesmo tempo, mais sensível e mais limpo do que o seu opositor, que é demasiado bruto e porco para perceber que está a ser nojento. Após sentenciado o nojo, não há discussão: aguarda-se que o nojento seja retirado da presença das pessoas asseadas.

Este vómito perpétuo tem o mérito de introduzir alguma energia num ambiente que costuma ser titubeante. Num país em que os factos são sempre alegados, é bom que o nojo seja comprovado. Podemos não ter a certeza de nada, mas sabemos que é nojento. Sempre conseguimos agarrar-nos a qualquer coisa.


O problema deste método é que, em português, a palavra nojo tem significados bastante diferentes. A expressão “uma pessoa nojenta” tanto pode designar uma pessoa que mete nojo como uma pessoa que se deixa enojar com facilidade. Ou seja, quando acusamos os outros de serem nojentos, estamos a ser nojentos. E fica difícil distinguir o nojento que inflige nojo do nojento que sofre nojo – o que acaba por ser nojento. Além do mais, estar sempre a bradar nojo parece mesmo coisa de mete-nojo. E há ainda uma questão adicional. No nosso complexo idioma, o nojo não é necessariamente mau. É frequente, por exemplo, determinada sobremesa ser tão boa que até mete nojo. Fica claro, por isso, que é preciso encontrar outra estratégia para diminuir preguiçosamente o adversário. Esta é um nojo.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ visão

sábado, maio 19, 2018

Desporto de fim de semana - 2018/05/19

Futebol 
Sábado, 2018/05/19
 - 14:00 - Juventus -v- Hellas Verona -  Serie A 2017/18 (SportTv2)
 - 17:15 - Manchester United -v- Chelsea -  FA Cup 17/18 (SportTv3)
 - 19:00 - Bayern München -v- Eintracht Frankfurt -  DFB Pokal 2017/2018 (SportTv1)
 - 19:45 - Villarreal -v- Real Madrid -  Liga Espanhola 17/18 (SportTv2)
 - 20:00 - Caen -v- Paris SG -  Ligue 1 17/18 (SportTv3)
 - 22:00 - Troyes -v- Monaco -  Ligue 1 17/18 (SportTv3)

Domingo, 2018/05/20
 - 01:00 - Palmeiras -v- Bahia -  Brasileirão 2018 (PFC)
 - 11:00 - Valencia -v- Deportivo -  Liga Espanhola 17/18 (SportTv2)
 - 17:00 - Milan -v- Fiorentina -  Serie A 2017/18 (SportTv4)
 - 17:00 - Napoli -v- Crotone -  Serie A 2017/18 (SportTv3)
 - 17:15 - Desp. Aves -v- Sporting -  Taça Portugal 17/18 (RTP1)
 - 17:30 - Atlético Madrid -v- Eibar -  Liga Espanhola 17/18 (SportTv2)
 - 19:45 - Barcelona -v- Real Sociedad -  Liga Espanhola 17/18 (SportTv2)

Quinta-feira, 2018/05/24
 - 01:45 - River Plate -v- Flamengo -  Libertadores 2018 (SportTv2)



Basquetebol
Domingo, 2018/05/20
 - 01:30 - Cleveland Cavaliers -v- Boston Celtics -  NBA 17/18 (SportTv3)

Segunda-feira, 2018/05/21
 - 01:00 - Golden State Warriors -v- Houston Rockets -  NBA 17/18 (SportTv1)

Terça-feira, 2018/05/22
 - 01:30 - Cleveland Cavaliers -v- Boston Celtics -  NBA 17/18 (SportTv1)

Quarta-feira, 2018/05/23
 - 02:00 - Golden State Warriors -v- Houston Rockets -  NBA 17/18 (SportTv1)



Hóquei em patins
Sábado, 2018/05/19
 - 15:00 - FC Porto -v- Benfica -  I Divisão 17/18 (TVI24)



Futsal
 Sexta-feira, 2018/05/25
 - 19:15 - Benfica -v- Quinta dos Lombos -  Liga SportZone 17/18 (TVI24)



Tenis
Sábado, 2018/05/19
 - 11:00 - Svitolina E. (Ukr) -v- Kontaveit A. (Est) - WTA - Roma (Itália)
 - 13:30 - Nadal R. (Esp) -v- Djokovic N. (Srb) - ATP - Roma (Itália)
 - 16:00 - Halep S. (Rou) -v- Sharapova M. (Rus) - WTA - Roma (Itália)
 - 19:00 - Cilic M. (Cro) -v- Zverev A. (Ger) - ATP - Roma (Itália)


Voleibol
Sábado, 2018/05/19
 - 15:00 - Portugal -v- Espanha -  Liga de Ouro 2018 (SportTv1)


WRC
Domingo, 2018/05/20
 - 12:00 - Vodafone Rally de Portugal