sábado, março 10, 2018

Jantar na sala de espera do veterenário

Mesmo agradecendo a lembrança dos legisladores, não usufruirei da nova lei que permite a entrada de animais de companhia em restaurantes. Os meus quatro cães – a Flor, a Ginja, o Demónio e a Dona Custódia – continuarão a ficar em casa quando eu for jantar fora. Há quem seja contra a entrada de cães em restaurantes. Eu sou contra a entrada de algumas pessoas. Sobre os cães, ainda não decidi. Mas não levarei os meus porque são bichos que, como se costuma dizer, não sabem estar. Talvez os cães da rainha de Inglaterra saibam comportar-se em casas de restauração. Desconfio que os meus não sabem. São dados a alegrias parvas e a ternuras brutas. As alegrias parvas fazem com que eles abanem a cauda com o vigor que alguns chicotes não têm. As ternuras brutas impelem-nos a pôr as patorras no peito de desconhecidos com o objectivo de lhes lamberem a cara. Bem sei que, ao contrário de mim, que continuo a deslocar-me a restaurantes com a desactualizada ambição de comer, os clientes procuram hoje, mais do que uma refeição, “experiências gastronómicas”. Mas duvido que possam estar interessados na experiência de ter as beiças húmidas de um boxer a abocanhar-lhes docemente o nariz.

As críticas que tenho lido à nova lei tendem a concentrar-se nos animais e a esquecer o problema principal, que são os donos. Quem já esteve na sala de espera de um veterinário sabe que há dois tipos de donos de cães: os que falam com as outras pessoas sobre o seu cão e os que falam com o seu cão sobre as outras pessoas. Os primeiros aguardam que um dos outros donos seja suficientemente incauto para estabelecer contacto visual e costumam abrir a conversa com um resumo do historial clínico do cão. “Este maroto já me fez cá vir três vezes esta semana. Coitadinho. Mas faz muita companhia. Ontem, chego a casa e ele…” E por aí fora. Os segundos optam por este modelo: “Ó Bolinhas, aquele senhor tem uma cadelinha que era uma namorada mesmo boa para ti.” Quem quiser responder ao dono do Bolinhas tem de se meter na conversa e dirigir-se a ele por interposto cão: “Não pode ser, Bolinhas, que a Princesa está esterilizada. Não é Princesa?” Ambos os donos conseguem manter este diálogo até que um deles seja chamado para entrar no consultório, altura em que dirá: “Adeus, Bolinhas. As melhoras.” Suponho que, nos restaurantes, os donos de cães se relacionem do mesmo modo. É essa questão que a lei não contempla. Espero que o Presidente da República ou o Tribunal Constitucional acrescentem essa adenda: os cães podem frequentar os restaurantes, mas os donos estão impedidos de aborrecer os outros clientes com histórias giras sobre aquela vez em que o Lorde se assustou com uma trovoada e só tremia debaixo da cama. Não foi, Lorde? Coitadinho.


Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

segunda-feira, março 05, 2018

Modalidades - 2018/03/03

Sábado, 2018/03/03
 - 15:00 - Andebol - ABC de Braga -v- SL Benfica - Campeonato - Jornada 25
 - 15:00 - Rugby - SL Benfica -v- CDUP - Campeonato - Jornada 9
 - 16:30 - Basquetebol Feminino - Académico FC -v- SL Benfica - Campeonato - Jornada 21
 - 18:15 - Voleibol  - SC Espinho -v- SL Benfica - Campeonato - Apuramento
 - 18:15 - Futebol - SL Benfica -v- CS Maritimo - Liga NOS - Jornada 25
 - 21:30 - Futsal Feminino - SL Benfica -v- Sporting CP - Campeonato Nacional - Apuramento Jogo 4


Domingo, 2018/03/04
 - 15:00 - Futebol - SC Covilhã -v- SL Benfica B - Segunda Liga - Jornada 27
 - 16:00 - Hóquei  - AD Valongo -v- SL Benfica - Campeonato - Jornada 18 (tvi24)
 - 17:00 - Hóquei Feminino - AA Coimbra -v- SL Benfica - Taça de Portugal - Quartos-de-Final
 - 18:00 - Basquetebol - FC Barreirense -v- SL Benfica - Campeonato - Jornada 21
 - 19:30 - Futsal  - Leões de Porto Salvo -v- SL Benfica - Campeonato Nacional - Jornada 19 (tvi24)

sábado, março 03, 2018

Desporto de fim de semana - 2018/03/03

Sábado, 2018/03/03
 - 15:00 - ABC Braga -v- Benfica -  Andebol 1 17/18 (TVI24)
 - 16:00 - Troyes -v- Paris SG -  Ligue 1 17/18 (SportTv5)
 - 17:00 - Sp. Espinho -v- Benfica -  Divisão Elite 17/18 (SportTv)
 - 17:00 - Lazio -v- Juventus -  Serie A 2017/18 (SportTv4)
 - 17:30 - RB Leipzig -v- Borussia Dortmund -  1. Bundesliga 17/18 (SportTv2)
 - 17:30 - Liverpool -v- Newcastle -  Premier League 2017/18 (SportTv3)
 - 18:15 - Benfica -v- Marítimo -  Liga NOS 17/18 (BTv)
 - 19:45 - Real Madrid -v- Getafe -  Liga Espanhola 17/18 (SportTv2)
 - 19:45 - Napoli -v- Roma -  Serie A 2017/18 (SportTv5)
 - 21:30 - Benfica -v- Sporting -  Nacional Futsal Feminino Ap.Camp. 17/18 (BTv)
 - 23:30 - Swansea City -v- West Ham -  Premier League 2017/18 (SportTv2)

Domingo, 2018/03/04
 - 13:30 - Brighton & Hove Albion -v- Arsenal -  Premier League 2017/18 (SportTv3)
 - 15:15 - Barcelona -v- Atlético Madrid -  Liga Espanhola 17/18 (SportTv2)
 - 15:30 - Benfica B -v- Maia BC -  Proliga Promoção 17/18 (BTv)
 - 16:00 - Manchester City -v- Chelsea -  Premier League 2017/18 (SportTv3)
 - 17:00 - SC Freiburg -v- Bayern München -  1. Bundesliga 17/18 (SportTv5)
 - 18:00 - Benfica -v- Sporting -  AF Lisboa Futsal Fem. Jun.A 2ªF AC 17/18 (BTv)
 - 18:00 - Paris SG -v- Kiel -  Liga dos Campeões 17/18 (SportTv3)
 - 19:30 - Leões Porto Salvo -v- Benfica -  Liga SportZone 17/18 (TVI24)
 - 19:30 - Benfica -v- Eléctrico -  LPB Placard 17/18 (BTv)
 - 19:45 - Milan -v- Internazionale -  Serie A 2017/18 (SportTv3)

Segunda-feira, 2018/03/05
 - 19:00 - Portugal -v- Noruega -  Algarve Cup 2018 (TVI24)
 - 20:00 - Crystal Palace -v- Manchester United -  Premier League 2017/18 (SportTv3)

Terça-feira, 2018/03/06
 - 19:45 - Liverpool -v- FC Porto -  LC 2017/2018 (SportTv1)
 - 19:45 - Paris SG -v- Real Madrid -  LC 2017/2018 (SportTv2)

Quarta-feira, 2018/03/07
 - 19:45 - Manchester City -v- FC Basel -  LC 2017/2018 (SportTv1)
 - 19:45 - Tottenham -v- Juventus -  LC 2017/2018 (SportTv2)

Quinta-feira, 2018/03/08
 - 18:00 - Milan -v- Arsenal -  Europa League 2017/18 (SportTv1)
 - 18:00 - Borussia Dortmund -v- Red Bull Salzburg -  Europa League 2017/18 (SportTv3)
 - 18:00 - CSKA Moskva -v- Lyon -  Europa League 2017/18 (SportTv5)
 - 18:00 - Atlético Madrid -v- Lokomotiv -  Europa League 2017/18 (SportTv2)
 - 20:05 - Marseille -v- Athletic -  Europa League 2017/18 (SportTv1)
 - 20:05 - Lazio -v- Dynamo Kyiv -  Europa League 2017/18 (SportTv2)
 - 20:05 - RB Leipzig -v- Zenit -  Europa League 2017/18 (SportTv3)
 - 20:05 - Sporting -v- Plzen -  Europa League 2017/18 (SIC)

Sexta-feira, 2018/03/09
 - 19:45 - Strasbourg -v- Monaco -  Ligue 1 17/18 (SportTv3)
 - 19:45 - Roma -v- Torino -  Serie A 2017/18 (SportTv5)

Um mar de trocadilhos com rio

Um aspecto menos referido da ascensão de Rui Rio à presidência do PSD é a alegria que ela veio trazer a um grande número de jornalistas e comentadores amigos dos jogos de palavras. Rio foi eleito há pouco menos de um mês, mas creio que ao fim de uma semana já tinham sido feitas todas as alusões fluviais possíveis. Qual viria a ser o curso de Rio? Alguns militantes desejavam que ele corresse para a foz. Mas outros queriam fazer-lhe barragem. Ou limitavam-se a ficar nas margens, recusando ir na corrente. Teria ele um caudal exuberante nos primeiros tempos de estado de graça? O entusiasmo não parecia suficiente para gerar cheias. Alguma intriga palaciana já estava mesmo a poluir as águas. Seria Elina Fraga a ninfa de Rio? E Costa teria capacidade para suster a enxurrada nas legislativas?

Foi, sem dúvida, um momento extremamente enriquecedor da discussão pública, mas agora começa a sentir-se algum desespero. Como continuar a embelezar notícias e colunas de opinião sem repetir fórmulas? Permitam-me que ajude. É importante notar que o apelido do presidente do PSD não designa apenas um curso de água. É também uma forma do verbo rir. Talvez isso possa consolar profissionais dos media que ficaram prematuramente órfãos dos trocadilhos com o substantivo rio. Por exemplo, podemos supor que alguns sociais-democratas dizem: “Com Rui rio, mas com Santana choraria.” É possível que esta ideia dê origem a uma boa dezena de artigos. Por outro lado, não devemos esquecer que o nome de Rui Rio também pode proporcionar estupendas figuras de linguagem, tais como aliterações. Porque não regalar os leitores com o título: “Rui Rio refere risco de recessão e recomenda realismo”? Sucede ainda que rui é uma forma do verbo ruir. “Edifício do PSD de Passos rui com Rio” pode ser uma boa maneira de noticiar a mudança da estrutura dirigente do partido.


Há ainda outro problema de ordem onomástica que tem sido descurado. O PSD é formado por grupos afectos a algumas figuras: há os santanistas, os cavaquistas, os barrosistas. Ora, “riistas” não parece ser uma designação com futuro. É verdade que não me lembro de ter havido “ferreiraleitistas” – e bem, porque a denominação correcta teria sido, provavelmente, “ferreiraleiteiros”. Do mesmo modo, creio que ganharíamos se “riistas” desse lugar ao mais elegante “ribeiros”. Que, como é evidente, seriam afluentes de Rio.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

sexta-feira, fevereiro 23, 2018

Quem fala assim não é gago nem gaga

Caros e caras leitores e leitoras,

Como todos aqueles e todas aquelas que têm estado empenhados e empenhadas no uso de linguagem inclusiva bem sabem, há reaccionários e reaccionárias que persistem em falar e escrever com evidente desrespeito pelo nosso esforço. Esses e essas, é importante dizê-lo, não manifestam, com tal comportamento, uma mera discordância linguística: são verdadeiros inimigos e verdadeiras inimigas da igualdade de género. Aqueles e aquelas que são suficientemente teimosos e teimosas para não se conformarem ao novo modelo bem podem alegar que isso não faz deles e delas obstinados adversários e obstinadas adversárias de uma sociedade mais igual. Não é verdade. Podem dizer que também sonham com uma sociedade mais igual mas menos ridícula. Não nos convencem. Bem sei que alguns e algumas linguistas têm chamado a atenção para o facto de haver uma diferença entre género gramatical e sexo biológico, mas estão errados e erradas. Quando afirmam que a gramática não é responsável pelo machismo não estão a ser apenas ingénuos e ingénuas: estão a agir como criminosos e criminosas. O nosso projecto, ao contrário do que dizem os mal intencionados e as mal intencionadas, não é coisa de fanáticos e fanáticas. É uma tentativa de endireitar o mundo, sintagma nominal a sintagma nominal, sintagma verbal a sintagma verbal.

O ideal era termos um idioma em que as palavras não tivessem género, como a língua persa, falada no Irão, Tajiquistão e Afeganistão. Um facto que talvez explique os notáveis progressos em matéria de igualdade de género que esses países registam. Por cá, teremos de ficar satisfeitos e satisfeitas com esta língua enjeitada, que tem problemas difíceis de resolver. Por exemplo, como tornar inclusiva a frase “O João e a Maria foram juntos ao cinema”? A palavra “juntos”, no masculino, oprime obviamente a Maria. Mas a frase “O João e a Maria foram junto e junta ao cinema” parece ser agramatical. Só vejo uma solução: que o João e a Maria não vão ao cinema. Pelo menos até que estejamos habilitados e habilitadas a encontrar uma forma de eles poderem assistir a filmes em liberdade e segurança.


Os ingleses e as inglesas obtiveram há pouco tempo uma conquista importante: o metro deixou de saudar os passageiros e as passageiras dizendo “Good morning, ladies and gentleman”, ou seja, “Bom dia senhoras e senhores”, e passou a dizer “Good morning everyone”, isto é, “Bom dia a todos”, para não excluir as pessoas que não se identificam como homem nem como mulher. O problema é que, em português, a frase “Bom dia a todos” (que era, se bem estamos lembrados e lembradas, a forma primitiva de “Bom dia a todos e todas”) exclui os mesmos indivíduos. Para superar essa dificuldade, a filósofa brasileira Marcia Tiburi acaba de editar o livro “Feminismo em comum para todas, todes e todos”. Percebendo bem que a formulação “todos e todas” não era completamente inclusiva, Tiburi acrescentou a forma “todes”.

Só dizendo “todes” conseguimos incluir toda a gente (por enquanto). O que significa que os algarvios e as algarvias sempre foram inclusivos e inclusivas, mesmo sem o saberem. Um abraço para esse povo. Quem fala assim não é gago. Nem gaga.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

sexta-feira, fevereiro 16, 2018

Não há E-fome que não dê em E-factura

Todos os anos prometo o mesmo: desta vez é que eu não vou deixar a validação de facturas para o fim do prazo. Vou ser um cidadão responsável e validar facturas dia a dia. É rápido e fácil. Ou então semana a semana. Assim é que é. Tiro um bocadinho ao fim-de-semana e valido, não custa nada. Se calhar é melhor mês a mês. Sim, mês a mês é mais sensato. E depois chega Fevereiro e tenho as facturas todas por validar. Sou, ao mesmo tempo, um daqueles políticos aldrabões e o eleitorado traído.

Esta semana tenho estado a dar o meu passeio anual pelos bens e serviços que adquiri nos doze meses anteriores. É contabilidade e nostalgia. Um álbum de recordações do consumo. Depois de um ano a pedir facturas e a fornecer números de contribuinte, dedico-me agora a verificar facturas e a reintroduzir números de contribuinte. É pena que o sistema fique por aqui. Gostaria muito de manter o convívio com estas facturas por mais algum tempo. Tenho a certeza de que, com um pouco de imaginação, o Ministério das Finanças conseguiria encontrar uma maneira de, depois do pedido e da validação, obrigar o cidadão a realizar mais duas ou três operações fiscais com estas mesmas facturas. Uma revisão da validação, por exemplo. Ou a verificação da revisão da validação. Ou a comemoração das bodas de prata da validação, efectuada 25 anos após o pedido da factura.

Enquanto o processo de validação se mantém como está, o contribuinte tem o gosto de se confrontar com facturas que foram inseridas e validadas, outras que foram inseridas mas estão por validar, e outras ainda que nem foram inseridas nem estão validadas. Ninguém sabe porque é que o sistema deixa facturas por validar ou inserir, mas todas estas três modalidades oferecem diferentes prazeres. A simples verificação conforta, mas a validação realiza-nos. E a reintrodução completa de facturas requisitadas há meses exercita a memória. A que se referem estes 12 euros e meio que paguei à “Manuel Antunes, Lda” a 12 de Maio de 2017? Será uma despesa de Habitação? Saúde? Ou Outros? Não faço a mínima ideia. Por isso, em princípio, é Outros. 
É impressionante o dinheiro que, anualmente, gasto em Outros.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

domingo, fevereiro 11, 2018

Bruno Triolho, bondade e satiras

Cada um sabe de si e Nosso Senhor sabe de todos. Ora aqui está uma pérola da sabedoria popular. Aplica-se a tudo. Até a clubes de futebol. Cabe, assim, aos sportinguistas discutir a vida associativa do seu emblema e cabe aos demais, aos que não são sportinguistas, evitarem intrometer-se gulosamente nessa discussão alheia com juízos, bitaites e outras ingerências atrozes. Dos aspetos teóricos aos conteúdos mais informais, o momento associativo em Alvalade dispensa, certamente, as opiniões e as sentenças vindas do exterior. Técnicos de opiniões gerais de outras cores e mestres do 'achismo' parcial, abstenham-se de exibir toda a vossa sabedoria sobre revisões de estatutos que não vos dizem respeito, sobre o método de Hondt, seja lá o que isso for, e sobre convocatórias que não vos convocam para coisa nenhuma. Enfim, abstenham-se de perorar sobre a vida dos outros a quem nunca perdoam quando esses 'outros' cometem o mesmíssimo pecado da intromissão nos momentos mais azougados dos vossos e dos nossos clubes, tal como acontece frequentemente.

Sobre a alegada 'crise' no Sporting já disse, portanto, tudo o que queria dizer. Isto é, nada. Há, no entanto, duas questões absolutamente marginais à vida própria dessa instituição desportiva que, por isso mesmo, por serem de essência marginal ao Sporting, não me impedem de achar qualquer coisa, ainda que insignificante como irão de seguida constatar.

A relação da comunicação social com o presidente do Sporting é exemplo de uma sujeição bastante curiosa. Admite-se, por reverência e proteção devida à figura institucional do dirigente de um grande clube, que lhe corrijam por bondade e zelo os erros ortográficos na transposição dos seus escritos do Facebook para o papel impresso ou para as edições on-line. Mas interrogo-me por que razão não existe a mesma bondade da imprensa livre, a mesma proteção e o mesmo zelo – mais importante é o zelo! – quando trata de dar à estampa, publicitar e fazer ecoar listas com os nomes de meia centena supostos proscritos como se um procedimento destes fosse inocente, inconsequente e normalíssimo no ofício de bem informar. Não causa assim admiração a renúncia de Vasco Lourenço ao cargo que detinha no clube. Não foi para isto que ele fez o 25 de Abril.

Depois da ortografia, da comunicação social e da política, segue-se agora a questão do teatro. Lamentou-se o presidente do Sporting de ser vítima de sátiras nos palcos de Lisboa. O facto, em si, nada tem de espantoso. O que é espantoso, para quem desconhece os sintomas, é o facto de o autoproclamado presidente Bruno 'Triolho' não perceber por que razão é ele, e logo ele que se considera mais inteligente do que toda a gente, um alvo dessas chacotas teatrais.
Para terminar, uma breve consideração sobre mais uma jornada da Liga: Benfiquinha, não corras logo à noite em Portimão e vais ver o que te acontece.




Fonte: Leonor Pinhão @ record

sábado, fevereiro 10, 2018

Sherlock Holmes e o caso do camarote presidencial

Vamos começar pelos factos (para os leitores mais jovens, esclareço que “factos” eram uma coisa que os jornais publicavam antigamente, antes do advento das chamadas fake news): Mário Centeno pediu dois bilhetes para ir ver o Benfica-Porto com o seu filho no camarote presidencial do Estádio da Luz; os filhos de Luís Filipe Vieira obtiveram isenção de IMI para um imóvel que recuperaram no Chiado; as autoridades fizeram buscas no gabinete do Ministério das Finanças para averiguar se há relação entre uma coisa e outra. Sucede que a decisão de isentar imóveis de IMI cabe à autarquia, e não ao ministro; e o imóvel em causa qualificava-se legalmente para beneficiar dessa isenção. Pode ser que um destes factos não seja um facto, dado que os recolhi na cada vez mais falível comunicação social. Mas, havendo aqui factualidade, é difícil reconhecer a justiça portuguesa. Estamos perante um caso em que se desconfia que, em troca de dois bilhetes para ir à bola, um ministro concedeu um benefício que não tem poder para conceder a cidadãos que não precisam de favores para o obter. As autoridades judiciais não costumam ser tão zelosas. Ainda não foi assim há tanto tempo que houve para aí umas confusões envolvendo uns submarinos e um centro comercial em Alcochete sem que qualquer gabinete tivesse sido revistado.

Em Portugal, como sabe até quem não tem formação jurídica, há cortesia, jeitinho, favor e corrupção. Destes, só a corrupção é ilegal – e, felizmente, quase nunca ocorre no nosso país. A oferta de bilhetes a Mário Centeno parece ser um pouco mais que uma cortesia. Mas, em princípio, não passou de um jeitinho. Não foi uma cortesia, na medida em que a cortesia costuma ser voluntária. Aqui foi requisitada por Centeno, o que a transforma num jeitinho. Creio que seria um exagero qualificá-la como favor. Mas Mário Centeno está a ser investigado por um crime. Resta-nos, por isso, uma hipótese: ver futebol pode configurar a prática de um crime – o que não é surpreendente. Diz-se que, em Portugal, há criminosos entre os dirigentes, os jogadores e os árbitros. Era uma questão de tempo até os espectadores também estarem sob suspeita. Se o futebol português é um crime, assistir é cumplicidade. Mário Centeno precisa de um bom advogado.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira@Visão


sexta-feira, fevereiro 02, 2018

Nem 30 nem 300

Assim que o Governo anunciou a intenção de reduzir para 30 quilómetros por hora o limite de velocidade nas localidades, várias pessoas reclamaram: “Só?! É muito pouco!” E vários habitantes de Lisboa e Porto disseram: “Tanto?! Quem me dera. Quando circulo em hora de ponta raramente passo dos cinco à hora.” Parece ser uma daquelas ideias que indispõe toda a gente. Os automobilistas das grandes cidades já estavam condenados a engonhar por causa dos engarrafamentos, e agora passam a ter de engonhar também por causa da lei. Pessoas que moram em Benfica e trabalham no Parque das Nações melhoram a sua qualidade de vida se se mudarem para a Nazaré. É mais rápido vir da Nazaré para Lisboa, a 120 km/h, do que atravessar a cidade, a 30.

Como sempre faço antes de me pronunciar sobre qualquer tema, levei a cabo um profundo estudo sobre esta medida e, durante a semana, experimentei andar por Lisboa a 30 km/h. O balanço foi extremamente positivo para a minha segurança e a de todas as pessoas com as quais me cruzei, e extremamente negativo para a reputação da minha mãe, sobre cuja suposta actividade profissional isenta de impostos ouvi muitos comentários. Tirando ter de suportar a azeda animosidade dos seus concidadãos, o automobilista que circula a 30 só recolhe benefícios. A esta velocidade é perfeitamente possível ir adiantando o jantar, no caminho para casa. Ou ler um livro. Obtém-se uma nova tranquilidade, muito rara na vida urbana. Uma vez experimentei meter a terceira mas o carro não aguentou. Faz-se o caminho todo em segunda e não é preciso estar a mexer na caixa de velocidades. Dois funcionários da EMEL tentaram multar-me porque não perceberam se eu estava estacionado ou a andar. Fui ultrapassado por praticantes de running (que é, aliás, o antigo jogging. Trata-se de correr, na verdade, mas em estrangeiro). Depois de uma luta renhida, ultrapassei um senhor que ia de burro. Pessoas que iam a pé no passeio pensaram que eu estava a segui-las sinistramente e atiraram-me frutas ao pára-brisas. Foi uma experiência repleta de novas sensações.

A medida parece integrar-se num pacote abrangente que pretende criar um novo tipo de português que não fuma (porque já quase não existem espaços em que o possa fazer), não bebe refrigerantes (uma vez que os impostos sobre as bebidas açucaradas dispararam), não come rissóis nem sandes de presunto nas cantinas hospitalares (após a proibição da secretaria de Estado da Saúde) e conduz a 30 à hora (na sequência desta ideia do ministro da Administração Interna). Em princípio, nunca mais um português morrerá. A não ser de tédio. Mas, ao que tudo indica, o tédio também será proibido muito em breve.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

terça-feira, janeiro 30, 2018

O novo substitui o velho? Sim, talvez, mas calma aí...

Ainda que entradote na idade e, por isso mesmo, já esfumada aquela verve que lhe foi tão preciosa nas batalhas contra o Terreiro do Paço, deu-nos o presidente do FC Porto esta semana – a semana em que pelo décimo ano consecutivo se conseguiu "ver livre" de mais uma Taça da Liga – prova cabal de que em matéria de bom senso e de agilidade mental nada tem a temer no confronto directo com o seu anunciado sucessor Francisco José Marques. O funcionário em questão será, em função das circunstâncias, um bom director de comunicação do FC Porto mas, realmente, tem de contratar com urgência um director de comunicação para si próprio se quiser avançar para a presidência.

É que este Francisco, sendo umas boas décadas mais jovem do que o presidente do FC Porto, saiu-se esta semana com uma frase de índole autopromocional – "no futebol português tem de haver um Chico esperto" – que, certamente, nem como slogan lhe renderá proveitos. Porque se é para ser "esperto" que se candidata, com franqueza, apenas "esperto" é, enfim, coisa pouca.

Esperto a valer foi o ainda Pinto da Costa quando a imprensa – ávida de sururus e nostálgica daquelas tiradas "com a ironia do costume" (tão século XX!) – quis saber a sua opinião sobre o modo e, sobretudo, os modos com que o presidente do Sporting celebrou na tribuna VIP de Braga a grande penalidade convertida por Bryan Ruiz que colocaria a sua equipa na final da Taça da Liga. Ao contrário de qualquer Chico esperto intelectualmente capaz de dedicar a semana que antecede a visita do Benfica ao Restelo a insultar de alto-a-baixo "Os Belenenses", o presidente do FC Porto sabe dar importância às urgências do momento e sabe dar valor à utilidade prática de um parceiro institucional por mais idiota que se apresente aos olhos vesgos de escrutinadores parciais.

Frustrando os intentos sensacionalistas dos jornalistas, e mantendo com firmeza o rumo da estratégia traçada, disse Pinto da Costa não estar ali "para dar lições" a ninguém. Isto, sim, é de estadista consciente da sua obra, do seu currículo, do seu legado. No dia – que venha longe! – em que o presidente do FC Porto quiser e puder "dar lições", aí sim, vamos ter o caldo entornado.

Na semana passada, como estarão recordados, nasceram e morreram milhões de especialistas instantâneos em estruturas de betão e esta semana, para variar, foi a vez de milhões de especialistas instantâneos em leitura labial surgirem do nada e para nada. O Tiquinho já pediu desculpa ao treinador que de tão traumatizado que ficou nem conseguiu ver os penáltis. O Coentrão não pede desculpa a ninguém porque, segundo explicou, é "um homem" e não "uma máquina". Mas está equivocado. É uma máquina. Se fosse um ser humano tinha sido expulso em Setúbal e em Braga. Agora, francamente, expulsar uma máquina…



Fonte: Leonor Pinhão @ Record

quinta-feira, janeiro 25, 2018

O problema da habitação

Quando se soube que, no mês anterior às eleições internas do PSD, 13 mil militantes tinham ido pagar as quotas para poderem votar, louvei o surto de militância, mas receei que a despesa súbita pesasse no orçamento daqueles sociais-democratas. Não me enganei. Agora veio nos jornais que, em Ovar, 17 militantes do PSD moravam na mesma casa. O que gastaram nas quotas foram forçados a poupar na renda. Talvez não tenha sido um grande sacrifício: uma comunidade de militantes do PSD, vivendo juntos e dormindo em camarata, é uma boa ideia. Estimula a entreajuda e a troca de impressões sobre a vida interna do partido. Uma espécie de internato ideológico. Os militantes do Bloco vão acampar para a mata; os do PSD vão coabitar numa vivenda em Ovar. Faz sentido.

Fiquei mais sossegado quando os jornais foram investigar a casa em questão e descobriram que não era habitada por 17 pessoas mas por apenas 8 – nenhuma das quais militante do PSD. Melhor ainda: 17 militantes do PSD possuem uma moradia em sociedade e alugam-na a gente que não é social-democrata. Lucram onerando pessoas de outros quadrantes ideológicos.

O caso é ainda mais interessante no número 379 da Rua dos Pescadores, na mesma localidade. Nessa morada vivem mais 
8 militantes do PSD, embora não haja lá qualquer casa. Vivem num terreno baldio, demonstrando um despojamento e um amor à natureza que vão rareando neste nosso mundo moderno. O episódio faz lembrar as eleições internas do PS, em 2011, altura em que vários militantes de Coimbra declararam morar na Rua da Amizade, que seria um excelente sítio para viver, não fosse o caso de não existir. A militante que denunciou o caso foi justamente expulsa do partido. Mandaram-na para o olho da rua, e dessa vez era uma rua real. Mas, uns anos mais tarde, o Tribunal Constitucional reverteu a expulsão, o que não se compreende. Se há militantes que desejam morar numa rua que não existe, não devem ser impedidos. É um direito e, simultaneamente, uma divertida partida pregada aos CTT. Eu próprio gostaria de viver numa casa inventada, sita numa rua fictícia, pagando uma renda imaginária e um IMI quimérico. É poesia e poupança, tudo ao mesmo tempo. E eu aprecio poesia e gosto ainda mais de poupança.

Fica desmentida, portanto, a ideia de que PSD e PS são os partidos chatos do pragmatismo. Há aqui uma espécie de bloco central do sonho e da utopia, da imaginação e do devaneio. Gostava de enviar um postal de parabéns a ambos os partidos, mas não sei a morada.



Fonte: Ricardo Araujo Pereira @ Visão 

sexta-feira, janeiro 19, 2018

Se adjectivar, não beba

A deficiente utilização de certos adjectivos continua, com a cumplicidade do ministro da tutela, seja ele qual for. Já aqui falámos do que tem vindo a acontecer ao adjectivo brutal, vítima de uma brutal alteração de significado. Quase tudo o que é brutal, hoje, é o rigoroso oposto do que era brutal no passado. Mas talvez nenhuma outra palavra tenha tido pior sorte do que o adjectivo genial. Era um termo recatado, precioso, de utilização rara. Aplicava-se quase exclusivamente a coisas que tivessem sido feitas por Leonardo Da Vinci, e era assim que estava certo. De repente, sem que o mundo tivesse acompanhado esse melhoramento, tudo passou a ser genial. Certo vinho é genial. Uma peça de roupa pode ser genial. Alguns silêncios são geniais.

Nunca se desceu tão baixo, no entanto, como esta semana. Nos Estados Unidos acabou de sair um livro que, embora não tenha exercícios para meninos e meninas, Donald Trump deseja ainda assim retirar das prateleiras. Parece que o livro pinta um retrato bastante desagradável do presidente americano, o que em princípio significa que é uma obra rigorosa. Ofendido, Trump foi lamuriar-se para o Twitter – como, aliás, é próprio de quem tem facilidade em ofender-se. Disse que, ao contrário do que se afirma no livro, ele não é um imbecil. Na verdade, escreveu ele, “Eu sou, tipo, mesmo esperto.” E acrescentou que há bons argumentos para que se considere um génio. Vale a pena reflectir nestas palavras. Primeiro, poderíamos perguntar se uma pessoa inteligente diz de si própria que é inteligente. Segundo, se o diz, tipo, nestes termos. Mas é importante não deixar que a nossa antipatia por Trump nos tolde o raciocínio. Talvez ele possa, de facto, ser um génio.

Muita gente está convencida de que Donald Trump não pode ser um génio porque é um javardo. É falso. Não há qualquer incompatibilidade entre o génio e a javardice. Às vezes, são concomitantes. Alexander Fleming era um génio precisamente por ser um javardo. Uma vez, como é sabido, foi passar as férias de verão com a família e, quando voltou ao seu imundo laboratório, reparou nuns bolores que se tinham formado a um canto. Observando as suas propriedades, descobriu a penicilina. Quando mostrou o achado ao seu assistente Merlin Price, este exclamou: “Foi assim que descobriste a lisozima!” Price estava a manifestar uma justificadíssima perplexidade: a carreira de Fleming consiste, basicamente, na análise dos resultados da sua própria imundície. Comportava-se badalhocamente e depois examinava as consequências dessa conduta. Ora, Donald Trump, sendo um porcalhão literal e metafórico (no sentido em que é um porco no que diz respeito tanto à higiene como à moral), se fosse um génio, já teria inventado 30 vacinas. Material não lhe falta.



Fonte: Ricardo Araujo Pereira @ Visão

domingo, janeiro 14, 2018

Treinadores, escritores e imbecis morais

Ouvi alguma gente do Benfica mostrar-se relativamente satisfeita com aquele tipo sensato de respostas fornecidas por Rui Vitória perante a curiosidade pueril da generalidade da imprensa a propósito da recente investida de Sérgio Conceição, um dos maiores desordeiros do futebol nacional, contra o carácter do treinador da equipa tetracampeã nacional.

A ideia que ficou entre os apaniguados do Benfica – e, não necessariamente, apaniguados de Rui Vitória porque depois de perder o comboio de três competições no espaço de um mês não há treinador a quem sobrem muitos amigos – é que Vitória foi, uma vez mais, igual a si próprio. Um sujeito basicamente cordato, avesso a provocações e que, por isso mesmo, se vai recusando a dar troco a rufias. Foi este o pequeno conforto – as boas maneiras – disponibilizado pelo treinador do Benfica aos benfiquistas no momento em que o mais popular entre todos os clubes portugueses vem sofrendo o maior ataque que alguma vez sofreu de modo tão concertado ao longo de cento e alguns anos da sua História.

Não tendo, de facto, nada a opor ou a corrigir à maneira como Rui Vitória vai lidando o gado bravo nas arenas da comunicação, permito-me, no entanto, sucumbir a um momento de nostalgia evocando a personalidade do treinador inglês Jimmy Hagan, que passou pelo Benfica na década de 70, nunca se dando ao trabalho de debitar mais do que duas palavras sempre que o vinham aborrecer com perguntas maçadoras: "No comments!" E mesmo quando as questões eram menos maçadoras, e até de algum modo interessantes, Hagan raramente se alargava em considerações que extravasassem o seu laconismo de marca e lá seguia distribuindo democraticamente os seus "no comments!" até que a multidão sedenta de manchetes desistisse de o importunar. Mas, para uma coisa destas, só um inglês do século passado.

O Benfica venceu no campo do Tondela e no campo do Moreirense porque os seus adversários fizeram o frete aos campeões nacionais. Entretanto, o Benfica joga esta noite em Braga para a discussão do 3.º lugar da tabela e se, eventualmente, conseguir vencer o seu adversário também se insinuará que o Sporting de Braga de Abel Ferreira lá fez o frete ao Benfica. É esta a sugestão maldosa que o presidente e a maltosa que gere a página do director de comunicação do Sporting e ainda a linha editorial do canal oficial de televisão do clube apostaram em fazer correr ao longo da semana. Um escritor escocês, John Buchan, definiu em 1924 num dos seus curiosos romances de aventuras exóticas um certo tipo de personagens lamentáveis a quem chamou de "imbecis morais", uma espécie de "fanáticos" que subsistem do "ódio selvagem contra qualquer coisa". De facto, para uma ficção destas, só um escocês do século passado."



Fonte: Leonor Pinhão @ record

sexta-feira, janeiro 12, 2018

Narcos 2018

Foi um dos casos mais graves da minha carreira e afectou a nossa unidade para sempre. Estávamos em Janeiro de 2018, escassos dias após a publicação em Diário da República do despacho nº 11391/2017, que limitava a venda de produtos prejudiciais à saúde em bares e cafetarias de instituições do Ministério da Saúde. Salgados, pastelaria, charcutaria e refrigerantes tinham sido banidos desses espaços, para estimular hábitos de alimentação saudáveis. Eu, Javier Peña, e o meu colega Steve Murphy, fomos enviados pela DEA americana para ajudar Portugal na luta contra os fritos e as gorduras saturadas. A nossa primeira missão, que seria também a última, foi vigiar a cantina do Hospital de Santa Maria. À primeira vista, estava tudo bem: a cantina vendia apenas frutas, legumes e vários produtos desenxabidos. Mas os frequentadores do hospital pareciam manter uma certa felicidade bastante suspeita, e o Ministério mandou investigar. No princípio, não demos por ele. João Diogo Dias vinha visitar uma tia, operada a uma hérnia. De repente, na ala em que a tia estava internada, os outros doentes começaram a ficar mais alegres. Riam alto, conversavam, não tinham qualquer intenção de impingir uns aos outros receitas de batidos verdes. Era óbvio que não estavam a seguir uma alimentação saudável. O Murphy ofereceu-se para se infiltrar à paisana e descobriu tudo. Dias depois, João Dias estava sentado à minha frente na sala de interrogatórios, depois de ter sido apanhado na posse de um tupperware com 10 croquetes, cinco rissóis e três empadas.

– Sr. Dias – disse eu –, sabe qual é a pena para quem trafica salgadinhos?

João Dias não respondeu.

– Isto mata, sr. Dias. Os seus são especialmente perigosos, porque são caseiros.

– Não é tráfico, eu trouxe-os para a minha tia. Os outros doentes pediram-me e eu ofereci.

– Sabemos como isto funciona, sr. Dias. Os primeiros são oferecidos, até os clientes ficarem agarrados ao rissol. O meu colega, que se infiltrou à paisana, e a quem ofereceu dois croquetes, está neste momento a fazer análises. O colesterol dele subiu dois pontos. Dois pontos, sr. Dias. E está perdido. Não creio que possa voltar a trabalhar. Quando o levaram para a clínica, gritava “Deixem-me só provar as chamuças!”, e também “Aquilo deve ir bem é com uma imperial fresquinha!” Ele nem sequer é português, sr. Dias.

– Eu só queria animar a minha tia. Ela gosta de croquetes.

– O problema é que isto não é um produto inofensivo que possa ser usado para fins médicos, como a marijuana.

– Se eu tivesse marijuana no tupperware deixavam-me ir?

– Claro. Estamos inclusivamente a estudar uma proposta de legalização. Isto dos croquetes é que é muito nocivo. Mas nós não estamos interessados em si, sr. Dias. Sabemos que é apenas o correio. Se nos disser quem produz estes croquetes, não o acusaremos. O nosso laboratório diz que os seus croquetes são dos mais puros que eles já viram: carne a sério, refogado puxadinho, pedaços de chouriço. Quem os fez sabia o que estava a fazer.

– Mas desde quando é que os croquetes são proibidos?

– Desde Dezembro. Tem de estar mais atento aos despachos do Ministério da Saúde. Vamos, sr. Dias. Só precisamos de um nome.

Fez-se um silêncio. Finalmente, o homem quebrou:

– Clotilde Dias.

– Quem é?

– A minha avozinha.

– Devíamos ter adivinhado. São sempre elas. Essa geração está perdida.




Fonte: Ricardo Araujo Pereira @ Visão

domingo, janeiro 07, 2018

Por que foi Batagglia discriminado?

Prepare-se desde já a douta opinião pública para a próxima fornada de correspondência electrónica a ser divulgada na praça. Sim, é urgente avisar as boas consciências de que o melhor, o suprassumo, agora é que está mesmo, mesmo a chegar. E que grande estardalhaço cívico vai produzir a difusão de todo manancial de conteúdos trocados entre a malandragem do costume e os seus capangas diletos na preparação do dérbi de quarta-feira passada no Estádio da Luz. Material mais fresco, está visto, não poderia haver. Preparem-se.
Teremos todos, muito em breve, provas irrefutáveis de que o Benfica não só encomendou ao árbitro Hugo Miguel uma arbitragem escandalosamente anti-caseira – com o intuito perverso de ‘disfarçar’ o seu imenso poderio no sector do apito – como também aliciou quatro jogadores do Sporting – Fábio Coentrão, Piccini, William Carvalho e Batagglia – para, por esta ordem, jogarem a bola com a mão na sua área de modo a que Hugo Miguel e o vídeo-árbitro fossem dispondo de capitosas oportunidades para exibir todo o seu falso anti-benfiquismo primário. Ou seja, tudo não passou de uma encenação maquiavélica como o futuro se encarregará de demonstrar.

Dizem os jornais que, no fim do jogo, Battaglia foi visto a chorar na cabina. Sentiu-se discriminado. E tinha razão o simpático jogador argentino. Com que direito apitou Hugo Miguel para a marca de grande penalidade aos 89 minutos do jogo no momento em que Battaglia, confiantemente, desviou com a sua mão a bola rematada por Rafa? Não era nada disso que estava combinado como o provará a catrefada de emails que, de fonte segura, já vem a caminho.

O que tem a mão de Battaglia a mais ou a menos do que a mão de Fábio Coentrão, a mão de William Carvalho ou a mão de Piccini? Que culpa teve Battaglia de que Hugo Miguel tivesse falhado a missão para que foi seduzido pelo Benfica: prejudicar o próprio Benfica nas decisões capitais como prova de que o Benfica, afinal, não manda nisto tudo? O que se passou na Luz foi o maior atentado à igualdade de critérios em mais de um século de futebol em Portugal. Não havia o Battaglia de chorar…

Assim vai, tristemente, o futebol português. Já nem na igualdade de critérios se pode confiar. E foi, precisamente, o que fez Battaglia ao minuto 89. Confiou na igualdade de critérios do árbitro, na igualdade de critérios do vídeo-árbitro, confiou na impunidade perversamente pré-concertada pelo Benfica para se poder ‘fazer de vítima’ – lerão tudo nos próximos emails – e confiou até no desacerto de Jonas no que dizia respeito a meter golos aos rivais.

Mas, por mais incrível que pareça, Jonas desta vez acertou com a bola nas redes da baliza de Rui Patrício o que leva a suspeitar se o próprio Jonas não terá sido também aliciado por terceiros para que o resultado fosse um empate. Tudo se saberá a seu tempo. Haja paciência.



Leonor Pinhão @ record

Quem tem estrelinha?

Uma grande dúvida ocupava com igual intensidade as cogitações dos adeptos do Benfica e do Sporting à saída do Estádio da Luz na noite da última quarta-feira. Perante o que se viu naqueles noventa minutos realmente intensos e perante o resultado com que terminou o dérbi da cidade de Lisboa, qual dos dois emblemas se pode vangloriar da fortuna e chamar para si os benefícios daquela coisa indefinível a que se convencionou chamar de "estrelinha de campeão"? Jorge Jesus explicou no fim do jogo aos jornalistas e à população em geral que o empate registado "não era um bom resultado para o Sporting" mas que "era um resultado pior para o Benfica" e, com toda a franqueza, não deixa de ter razão o treinador do Sporting. Perder pontos em casa é sempre uma contrariedade para quem joga para o título e perder em pontos em casa no confronto com um concorrente directo ao título é ainda pior.

Do lado do Benfica, veio muita gente dizer que o ‘penta’ está ao alcance dos tetracampeões se a equipa mantiver a motivação, a entrega e, principalmente, o nível exibicional do dérbi. Ora uma proeza destas nunca será fácil – não porque falte vontade aos jogadores de Rui Vitória – mas porque de campeões fiados num sistema que os torne capazes de substituir com êxito prático médios defensivos por extremos ou defesas centrais por médios ofensivas nos momentos do tudo ou nada não reza a História. A ousadia – ou desespero? – de Rui Vitória nos vinte minutos finais do dérbi terá sido compensada com, do mal o menos, a conquista do empate ao cair do pano e, por isto mesmo, houve benfiquistas que saíram do estádio satisfeitos por considerarem que a "estrelinha de campeão" morava, pelo quinto ano consecutivo, na Luz. É que o Benfica jogando muito desguarnecido lá atrás não só conseguiu não sofrer mais golos como conseguiu carregar com tal fúria sobre o adversário que, à quarta mão na área leonina, o árbitro não teve outro remédio que não fosse assinalar o penálti que Jonas converteria no golo do mais do que justificado empate.

Perante os factos de quarta-feira é, no entanto, mais fácil de aceitar a convicção sportinguista de que a "estrelinha de campeão" mora em Alvalade esta temporada. É certo que Rui Patrício não foi obrigado a trabalho apurado. Mas como retirar ao Sporting a bênção da tal "estrelinha" quando saiu relativamente incólume da Luz depois daquele quase autogolo de Coates, daquele quase autogolo de Piccini e daquela "bicicleta" final de Raúl Jiménez no culminar de muitas outras situações de aflição? Quem tem estrelinha? Aqui está uma questão que não vai ter resposta até maio.



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manhã

Feliz 2018 (se existir)

Antever o ano que se aproxima costuma ser um exercício completamente inútil – daí que ocupe tantas páginas de jornal. São antevisões que, periodicamente, antevêem o futuro, nunca antevendo o que realmente deveria ser antevisto. Ninguém anteviu a queda do BES, a prisão de José Sócrates ou as vitórias de Portugal no Europeu e na Eurovisão. Bruxos de todos os feitios dedicam-se a fazer previsões que nunca se concretizam e a falhar a previsão do que realmente acontece.

A realidade costuma ser imprevisível – ao contrário, curiosamente, das previsões. É possível prever, por exemplo, que alguém vai prever o fim do mundo. Uma rápida pesquisa no Google confirma-o: já estão agendados dois fins do mundo para 2018. Um grupo de gente relativamente perturbada alega que o mundo terminará a 20 de Maio e outro grupo com as mesmas características psíquicas garante que o fim do mundo ocorrerá a 24 de Junho. Ambos os grupos sustentam a previsão em versos bíblicos que não permitem, de modo nenhum, retirar essas conclusões. Ainda assim, a Bíblia é um dos instrumentos favoritos daqueles que se entretêm a fazer previsões, juntamente com, por exemplo, polvos – o que não surpreende uma vez que a Bíblia e os polvos têm exactamente a mesma taxa de sucesso no que toca a prever o futuro.

Há, no entanto, previsões que dispensam a leitura da Bíblia, a contemplação de polvos ou o exame das vísceras de galinhas. Por exemplo, é difícil errar na previsão de que, em Portugal, há coisas que não vão correr bem em 2018. Haverá sem dúvida nenhuma um escândalo. Responsáveis políticos vão estar envolvidos. Responsáveis políticos do partido a que pertencem os envolvidos vão lembrar que responsáveis políticos de outros partidos já estiveram metidos em escândalos iguais ou piores. As redes sociais vão incendiar-se. Nisto, acontecerá uma catástrofe. Haverá solidariedade para com as vítimas da catástrofe. Em princípio, haverá um escândalo relacionado com a origem ou a prevenção da catástrofe. Responsáveis políticos do partido a que são assacadas as responsabilidades da catástrofe vão lembrar que responsáveis políticos de outros partidos já foram responsáveis por catástrofes iguais ou piores.

As redes sociais vão incendiar-se. Entretanto, Portugal terá uma pequena vitória internacional. As catástrofes e os escândalos serão esquecidos, porque nós, apesar de tudo, realmente somos um povo que sim senhor. E depois chegará a altura de fazer as previsões para 2019



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

quarta-feira, janeiro 03, 2018

A era do pernil de porco já chegou

Cobardes e miseráveis. Nas vésperas de mais um dérbi da Capital foi deste modo que o presidente do Sporting baptizou os presidentes dos demais clubes com excepção feita, naturalmente, ao presidente do FC Porto por uma questão de respeito. Tudo isto por ocasião da última assembleia geral da Liga de Clubes que aconteceu ontem. O presidente do Sporting, presume-se, ter-se-á sentido sabotado pelo "ensemble" associativo a quem chamou de miserável em geral e pelos homens presentes a quem chamou de cobardes em particular, salvaguardando, nunca é demais repetir, a figura referencial do presidente do FC Porto.

Tal como o nosso ministro dos Negócios Estrangeiros veio a público afirmar que "o governo português não tem o poder para sabotar o pernil de porco" – referindo-se ao diferendo alimentar com o presidente Maduro da Venezuela –, deveria ter vindo imediatamente a público o presidente da Liga de Clubes dizer exactamente a mesma coisa, por outras ou até pelas mesmas palavras, se entendesse cruial fazê-lo pela urgência de serenar os ânimos exaltados neste momento tão conturbado do futebol português. Para mais vem aí mais um derby.

Se, por analogia do momento, a assembleia geral da Liga de Clubes teve ontem o poder para sabotar o pernil de porco diligentemente confeccionado pelo presidente do Sporting com os prestimosos temperos emprestados pelo presidente do FC Porto, fez bem o presidente do Sporting em protestar veementemente contra a ausência de cultura democrática que detectou entre os seus pares do dirigismo nacional sabendo-se – é da cultura geral – que não há nenhum par que lhe chegue aos calcanhares em matéria de cultura democrática.

Mas deixemos os calcanhares em paz. Não é por causa dos calcanhares que a vida associativa do futebol português chegou a este estado. Foi mais por causa do pernil de porco, em sentido figurado, que ontem os patrões da bola não só se viram batizados de cobardes como também se viram intempestivamente deixados ao abandono quando o presidente do Sporting bateu com a porta levando a sua pequena comitiva atrás. Por não estar "ali a fazer nada" – segundo as suas próprias palavras –, bateria também com a porta o presidente do FC Porto, uns minutinhos mais tarde, solidário com o presidente do Sporting na indignação contra o poder evidenciado pela assembleia geral da Liga no que tocou a sabotar o pernil de porco, em sentido figurado, obviamente.

E é nisto que estamos em vésperas de mais um derby da Capital. Antes da modernidade trazida ao futebol pelo presidente do Sporting, os dias que antecediam os dérbis eram passados num já secular, e talvez por isso mesmo pachorrento, arremesso de vitupérios exclusivo entre os dois lados da Segunda Circular. Era apenas uma coisa entre eles. Agora, com a chegada da modernidade e vai tudo a eito no que toca ao insultar. Oh, que cambada de lampiões!

Destaque: É nisto que estamos antes de mais um derby da Capital.



Fonte : Leonor Pinhão @ record

sábado, dezembro 30, 2017

Ano novo, vida velha

Amanhã é o último dia do ano. Este facto parece ser o único indiscutível no que diz respeito aos sucessos e aos insucessos do futebol português neste tão peculiar ano de 2017. E foram, na realidade, tão peculiares e controversas as ocorrências dentro e fora das quatro linhas dos relvados em 2017 que só muito dificilmente o ano novo se poderá apresentar fresco, esperançoso e de cara lavada aos amantes do jogo. 

Ano novo, vida velha, é o que promete 2018 e não há, aparentemente, como contrariar a tendência autodestrutiva daquilo a que alguns chamam a indústria do futebol. 

Os últimos dias do ano não quiseram fugir à regra que se impôs na agenda de 2017 e trouxeram novas ameaças de escândalos e de proporções alarmantes. A suspeita de resultados combinados em jogos da Liga que estará a ser investigada pelo Ministério Público antecipa a configuração do mais terrível crime a que o futebol está sujeito. 

Podemos duvidar de quase tudo o que mexe no futebol – de árbitros, de dirigentes, de jornalistas e até da própria bola… - e continuar a gostar do jogo e a acreditar no jogo. Mas como poderemos continuar a amar o mesmo jogo se, pelas vias oficiosas e oficiais, nos sugerem que há jogadores – os artistas! – facilmente corrompidos para "facilitar" resultados que rendam maiores dividendos no mundo tenebroso das apostas? E não é isto muito mais grave do que saber-se, como se soube, que o Zivkovic ganha mais do que o Pizzi? 

A exposição pública dos valores dos ordenados dos jogadores do Benfica lança, indiscutivelmente, o capitoso tema da relação qualidade/preço no plantel da equipa campeã nacional mas de ilícito propriamente dito só terá o modo como essa informação classificada foi roubada e disponibilizada ao mundo na internet. 

Não há, portanto, grandes motivos para acreditar que 2018 será muito diferente do ano que vai agora terminar no que respeita a surpreendentes intervenções policiais – como foi a visita da PJ ao Estádio da Luz na sequência do caso dos emails – e a surpreendentes apelos à legalidade tal como os ocorridos sempre que o presidente do FC Porto vem a público defender a "verdade desportiva" que tanto ama há mais de três décadas. 

Veremos o que o ano novo nos traz. Tratando-se de futebol diga-se, já agora, que o grande triunfador de 2017 foi o Sporting. Ganhou 4 campeonatos das primeiras décadas do século passado. O outro vencedor foi o Moreirense porque ganhou a Taça da Liga sem que tivessem surgido suspeitas sobre a competição. Nas outras competições todas, o Benfica foi o vencedor. Mas não valeu. E nada valerá porque até ao último email está tramado o campeão nacional. 



Aventuras de um milionário em Espanha  
Quem não tem dinheiro não pode ser descarado à vontade  
As autoridades fiscais espanholas prosseguem a sua saga contra Cristiano Ronaldo e a nós, portugueses, só nos resta escolher um destes dois campos: ou se concorda com a posição da Unidade Central de Coordenação do Tesouro dos nossos vizinhos que entende que o nosso compatriota devia estar preso porque tem andado a fugir ao fisco ou, com outro tipo de preocupações não-sociais, se concorda alegremente que tudo isto é uma perseguição dos malditos castelhanos a um portuguesinho que, por sinal, é multimilionário. 

E, de facto, é. Como toda a gente acaba por descobrir um dia não é o dinheiro garantia de felicidade. Mas é garantia de grande despreocupação com estas minudências fiscais. "Estou preso a estes bebés lindos", respondeu o jogador português às autoridades espanholas exibindo uma fotografia com os seus três filhos mais novos. 

Quem não tem dinheiro a rodos não se pode dar ao luxo de ter este descaramento magnífico, é a conclusão. E agora, ‘nuestros hermanos’?



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha.

sexta-feira, dezembro 29, 2017

Balanços dos balanços do Ano

Fazendo um balanço do que têm sido os balanços do ano, neste final de 2017, creio que há razões para satisfação. Tem havido bons balanços, cumprindo as duas grandes tradições do formato: os balanços que resumem o ano mês a mês e os balanços que resumem o ano por ordem alfabética de tema. Registo, no entanto, uma falha grave: nenhum dos balanços publicados até agora se dedicou às chamadas fake news – que hoje têm uma importância igual ou até maior que as notícias verdadeiras. Faz sentido, por isso, juntar ao balanço do que se passou o balanço do que não se passou.

No que diz respeito a mortes que não ocorreram, este foi um ano preenchido. Adam Sandler morreu falsamente logo em Janeiro. A falsa morte de George H. Bush foi anunciada em Fevereiro (portanto, nove meses antes de ser acusado de assédio sexual), e depois houve várias falsas mortes a lamentar (ou a não lamentar. Ou a lamentar que se lamente o que não se deveria estar a lamentar. Enfim, é complicado): Rowan Atkinson não morreu em Março; Denzel Washington e Eddie Murphy não morreram em Abril; Clint Eastwood, Bill O’Reilly e Miley Cyrus não morreram em Maio (Maio foi um bom mês para não morrer); Imelda Marcos e Monica Lewinsky não morreram em Junho (Imelda teve uma falsa paragem cardíaca e Monica foi vítima de falso homicídio) e Kid Rock não morreu em Julho. Depois passaram dois meses sem falsas mortes, até que Morgan Freeman morre falsamente em Outubro. Já em Dezembro, a escassos dias de completar 101 anos, não morreu Kirk Douglas. Entretanto, a morte de Bob Denver, actor de Gilligan’s Island, foi anunciada em Janeiro, mas dessa vez tratava-se de outro tipo de falsa morte, uma vez que Denver já tinha morrido em Setembro de 2005. Tratou-se, neste caso, de uma falsa notícia de uma verdadeira morte, para desenjoar das falsas notícias de falsas mortes.

Um dos temas sempre em destaque nos falsos noticiários é a homossexualidade. Em Fevereiro, foi erradamente noticiado que o evangelista Pat Robertson tinha dito que “olhar fixamente para Melania Trump curava gays”, e em Agosto teve várias partilhas a notícia de que o Dr. Dimitri Yusrokov Slamini, de Novosibirsk, tinha descoberto uma vacina que curava a homossexualidade. Toda a notícia era falsa, com excepção da referência à cidade de Novosibirsk, que existe mesmo – o que, aliás, se lamenta.
Não custava nada ter inventado uma cidade russa.
É lamentável, a falta de brio profissional na classe dos falsos jornalistas.

No âmbito dos testículos, Junho e Julho foram meses especialmente ricos em falsas notícias. Primeiro, chegou-nos o falso relato de uma gaivota que arrancou o testículo a um banhista numa praia de nudistas, e logo a seguir a notícia falsa de um vencedor da lotaria de Atlanta que morreu na sequência de ter banhado a ouro o escroto. Mais uma vez, a cidade de Atlanta existe na realidade. Mau trabalho.

Este balanço do ano, inevitavelmente incompleto, deixa de fora várias notícias falsas de 2017. Gostaria de salientar, no entanto, que nenhuma foi inventada por mim – ou seja, são verdadeiras notícias falsas. Seria pouco ético que eu fizesse referência a falsas notícias falsas num ano tão recheado de notícias falsas verdadeiras. Entretanto, dói-me a cabeça.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão