segunda-feira, novembro 05, 2012

Os 10 trabalhos de Vieira

Vieira prepara-se para, numa questão de dias, tornar-se no presidente que mais tempo esteve ao leme do Sport Lisboa e Benfica. Apesar de outros nomes históricos do nosso clube terem cumprido também quatro mandatos, como Borges Coutinho, nenhum esteve tantos anos como presidente do Benfica quanto o dramaturgo e escritor Bento Mântua (1917-1926), cujo record será brevemente suplantado por Luís Filipe Vieira. O actual presidente terminará o mandato que agora inicia com 67 anos, idade que aliada às pessoas que escolheu para se rodear sugere que a reforma ocorrerá no final do mandato. Por isso mesmo, nestes quatro anos que parecem ser os últimos de Vieira à frente dos destinos do Benfica, quais as grandes metas, os grandes desafios e o que podemos e devemos esperar a nível desportivo, financeiro e de militância? Eis os dez objectivos ou metas estabelecidos que eu defino como cruciais para os próximos anos do Sport Lisboa e Benfica:

 

Três campeonatos

É ambicioso, para um presidente que em dez épocas ganhou dois campeonatos, definir como objectivo três títulos no espaço de quatro anos. É possível? É sim senhor. É provável? Não. Não acredito que o Benfica vença três dos próximos quatro campeonatos, este incluído. Falta-nos uma estrutura profissional que se preocupe 24 sobre 24 horas com o futebol. Enquanto na lista de prioridades os negócios pessoais estiverem à frente do futebol do Benfica, ganhar um campeonato que seja já será bom, por vezes até fruto do acaso ou de demérito de outros. Ainda assim, devo dizer que o mínimo que eu exijo ao meu clube, e sendo realista, é a conquista de dois campeonatos até ao fim da época 2015/2016. Três seria fantástico, dois já seria bom. Realisticamente, é isto.

 

Uma final europeia

Outra promessa que rapidamente cairá em saco roto. Uma final europeia, mesmo parecendo que não, é sempre difícil de alcançar. Nos últimos dez anos, o Porto, por três vezes, conseguiu esse feito. O Braga e o Sporting também, uma vez cada, e até o Boavista esteve a dez minutos de Sevilla em 2003. Olhando para estes números até nem parece difícil, mas é. Se o Benfica fizer boas prestações na Liga dos Campeões, alcançando sistematicamente os oitavos-de-final da prova, cumprirá com aquilo que penso serem as obrigações reais do clube. Uma ida a uma final europeia pressupõe, a meu ver, a final da Liga Europa, já que a da Champions se encontra muito "distante". Isso sim, seria tangível. Mas a verdade é que para se andar na Liga Europa é preciso fazer más campanhas na Champions ou nem meter lá os pés. Seja o que for, uma final europeia é sempre uma final europeia, e alcançar uma nos próximos quatro anos seria um enorme sucesso.

 

Cinquenta títulos nas modalidades

Um número ambicioso, sem dúvida, até para o que tem sido feito num passado recente. Mas atendendo às dificuldades orçamentais dos adversários (que também as têm, não somos só nós), até pode ser "facilmente" alcançado. Tracemos objectivos: para o Futsal, vista a bicefalização da modalidade, completamente dividida entre Benfica e Sporting, ganhar metade das provas nacionais disputadas seria um objectivo realista. Para o Basquetebol, face à ausência de adversários ao nosso nível, três campeonatos, três taças, duas taças da liga e três supertaças são metas possíveis. No Voleibol temos obrigação de fazer bem mais e bem melhor do que temos feito: três campeonatos, duas taças e duas supertaças são possíveis. No Hóquei em Patins a situação é complicada até pelo verdadeiro sistema intrinsecamente instalado na modalidade. Ainda assim, acredito na conquista de um campeonato, duas taças e duas supertaças. Por fim, no Andebol, modalidade onde se investiu muito para esta e, suponho, com vista para as próximas temporadas, arrisco dizer que apesar da concorrência, o Benfica pode ganhar dois campeonatos, três taças internas e duas supertaças. Contas feitas... 36 títulos. Onde é que Vieira vai buscar os 14 títulos que faltam? Ao Atletismo? Às outras modalidades mais "pequenas"? Ao futebol? Não sei. Para mim, o quarto mandato de Vieira precisa de pelo menos 36 títulos nas principais modalidades de pavilhão para obter nota positiva.

 

Direitos televisivos

Nunca extremei a minha posição relativamente aos direitos televisivos por uma razão muito simples: há imenso dinheiro envolvido neste assunto. E dizer não à SportTv sem olhar para a sua proposta pode ser uma imbecilidade. Não estou satisfeito com o que os jornalistas desse canal dizem a respeito do Benfica, não gosto da vassalagem ao Porto e o dono da empresa repugna-me profundamente. No entanto, há ofertas irrecusáveis. A dos ditos 40 milhões seria uma delas. Claro que hoje tal parece impossível, mas qualquer proposta acima dos 26 milhões anuais, por oposição aos 8, penso, que lucramos anualmente com esta parceria, seria bastante interessante. Por outro lado, a transmissão dos jogos na Benfica TV seria um motivo de enorme orgulho uma vez que assumiria um papel pioneiro a nível nacional e internacional na forma de fazer chegar a casa das pessoas os jogos da equipa mas também porque tornaria o Benfica independente de um dos braços do sistema. Qual a melhor solução? Sinceramente, não sei bem. Por um lado, acho que uma renovação com a SportTv por um valor superior a 26 milhões de euro anuais seria um bom negócio. Por outro lado, a transmissão dos jogos na televisão do clube, além de revolucionária, poderá trazer lucros e benefícios interessantes para o nosso clube. Esperar para ver.

 

Passivo

Parece que são 426 milhões de euros com capitais negativos à mistura, o que resulta numa situação denominada de falência técnica. Num Benfica que se quer ganhador mas poupado, não se pode gastar tanto dinheiro para obter tão escassos resultados. Vieira prometeu baixar drasticamente os gastos, o que deveria, naturalmente, reflectir-se numa redução do passivo. No entanto, pela imprevisibilidade que assola estas questões financeiras, e também pelos meus parcos conhecimentos na matéria, creio que é exigível ao Benfica fazer pelo menos melhor que os dois rivais.

 

Duas Taças de Portugal

O Benfica encontra-se num jejum histórico de Taças de Portugal (nenhuma conquistada nos últimos oito anos), superando o registo negro alcançado entre Damásio e Vilarinho, averbando também o record negativo de ausências consecutivas no Jamor (sete, a última em 2005, pela mão de Trapattoni). Vencer duas Taças de Portugal, prova rainha do nosso país, ainda a verdadeira festa do futebol, será, mais do que bom, uma obrigação e um alívio. Menosprezar esta competição é desconhecer a sua importância e a própria identidade do Benfica. A Taça de Portugal não é importante. É importantíssima.

 

Formação na equipa principal

Em 2016 cumprir-se-ão dez anos sobre o fim das obras no centro de formação no Seixal. Por essa altura já a equipa B terá quatro anos. Tempo mais que suficiente para inverter a tendência de ausência de jogadores portugueses e de jogadores formados no clube no plantel principal. Não estamos melhor nesta matéria do que estávamos há seis anos, por altura da construção do Seixal. Nem sequer estamos melhor que há dez ou doze anos. É grave e explica em parte a ausência de sucesso desportivo do Benfica. Um clube no qual os seus elementos não encontram motivos de identificação, dificilmente pode aspirar ao sucesso, a menos que seja muito melhor, muito mais forte que os rivais. Quando tal não acontece...

 

Quotas, bilhetes e cativos

Baixar o preço não é difícil, complicado é mantê-los. Para a situação actual dos portugueses, o preço das quotas (13 euros por mês) é elevado, sendo inclusivamente maior que as do Porto (não sei quanto custam as do Sporting), tal como acontece com os preços dos bilhetes para os jogos e com o preço dos cativos. Os dirigentes devem preocupar-se com o que os sócios e adeptos podem pagar. As primeiras medidas nesse sentido parecem ter sido tomadas, com a redução do preço dos bilhetes para o jogo com o Guimarães, mas é preciso manter. Veremos se, em quatro anos, esta será uma tendência para manter. Assim espero.

Aumentar a militância e associativismo

Um Benfica com mais sócios será sempre um Benfica mais forte. Um Benfica em que os sócios sejam mais activos e onde participem de forma empenhada na vida do clube será sempre um Benfica mais forte. Um Benfica onde os sócios e adeptos estejam presentes no estádio e nos pavilhões será sempre um Benfica mais forte. Um Benfica em que haja mais espírito crítico, mais propostas e maior envolvimento dos sócios será sempre um Benfica mais forte. São estas as tarefas que a actual direcção tem para os próximos quatro anos: angariar mais sócios, aumentar as assistências no estádio e nos pavilhões, promover e incrementar a participação dos sócios na vida activa do clube.

 

Revisão estatutária

Os actuais estatutos do Benfica são uma ofensa à democracia que desde sempre vigorou no nosso clube. A revisão do número de anos necessários para uma candidatura às eleições, o número de votos a que cada sócio tem direito e coisas mais simples, quase triviais, como os dias das Assembleias-Gerais têm de ser revistas. É simples, é fácil, mas é preciso coragem para o fazer. Coragem e a demonstração de que não se está agarrado ao poder.

 

Fonte: Eterno Benfica

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