terça-feira, agosto 14, 2012

Os neveiros da Lousã e o fascinante comércio da neve



Um destes fins de semana passeávamos pela Serra da Lousã quando de repente nos surgiu a placa indicativa de Santo António da Neve. Veio-nos à memória uma leitura acerca de uma atividade insólita desenvolvida há séculos atrás: o comércio da neve em pleno verão a partir da serra da Lousã.  

Curiosos por verificar se existiam vestígios que confirmassem os relatos ou se os mesmos não passariam de fantasia popular, percorremos uns poucos quilómetros por estrada íngreme e que exibe bem os sinais de como são agrestes os elementos por aqueles sítios. Valeu a pena pois mais do que vestígios ali estavam as provas de uma história incrível mas verdadeira. 


Existem registos de que, no ultimo quartel do século XVIII a corte portuguesa em Lisboa beneficiava em pleno verão do conforto proporcionado pela neve que era recolhida no inverno por ali, na freguesia de Coentral no topo da Lousã, concelho de Castanheira de Pera.  A atividade tinha tal relevo que existia, ao que parece, o cargo de neveiro-real. E constituía o ganha pão das gentes que ali habitavam, que todos os anos rezavam para que o inverno fosse pródigo em neve.

Uma vez recolhida, era então guardada e compactada em poços cobertos, construções de xisto com uma singela abertura voltada a nascente chamados neveiros (como aquele que fotografámos e que se encontra intacto).
Quando chegava o tempo quente, a neve era cortada e seguia em grandes blocos para Lisboa, transportada numa primeira etapa em carros de bois. Atenta a distância, os blocos eram envoltos em palha e assim isolados do calor para que não derretesse pelo caminho. Em Constância embarcavam-na e seguia pelo rio até à Capital.

Rezam as crónicas que por volta de 1782 a neve era vendida em Lisboa num botequim onde hoje se situa o Martinho da Arcada. Por causa desse comércio o estabelecimento foi sucessivamente conhecido por Casa da NeveCasa do Café ItalianaCafé do Comércio e Café Martinho. Esta última designação deriva  de ter sido seu proprietário um tal Martinho Rodrigues que em 1810 foi “contratador” da neve do Coentral. Tinha um depósito de neve na Travessa da Parreirinha (próximo do Teatro de S. Carlos), que aliás não era o único existente em Lisboa.

Uma incursão pela internet e por fontes referenciadas permitiu saber um pouco mais. Edições de A Gazeta de Lisboa, que se publicava no século XVIII, contêm relatos de venda de neve no botequim da Casa da Opera da Rua dos Condes e na loja de José Rodrigues Ferreira no Largo do Rato.


A etognosia de alguns dos lugares mais remotos fascina. E neste tempo em que julgamos que só a técnica e a tecnologia nos permitiram os cómodos mais vulgares e acessíveis, visitar estes locais e conhecer a sua história faz-nos perceber que o progresso é afinal o processo em que o génio humano se vai paulatinamente substituindo ao esforço e ao sacrifício. 

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