quarta-feira, agosto 29, 2012

Guttman, "O Feiticeiro"


Completam-se hoje 31 sobre a morte de um “Feiticeiro Húngaro” que conduziu o Benfica ao Olimpo entre 1959 e 1962. O Senhor que até hoje conseguiu, por via de palavras, marcar para a posteridade a descrição do que é a “Mística Benfiquista” : 

"Chove? Está frio? Está calor? O que importa? Nem que o jogo seja no fim do Mundo, entre as neves das serras ou no meio das chamas do inferno. Seja pela terra, pelo mar ou pelo ar eles aí vão, os adeptos do Benfica atrás da sua equipa... Grande, incomparável e extraordinária massa associativa!”

Bela Guttman de Seu nome. O “Feiticeiro” como ficou conhecido, graças aos seus métodos inovadores – tácticos e psicológicos - que aplicou na altura, aliados a uma arrogância ímpar.  Extremo defensor do futebol de ataque bem como de jogadores jovens, foi graças à “ratice” de Guttman que o Benfica eleva  na Sua história um Rei próprio de Seu nome Eusébio da Silva Ferreira. Mais importante que qualquer Presidente da República! O meu Pai costuma dizer: “a 1ª Dama deste País é e será a Flora”.. 
E eu, ao que constato, tem toda a razão!

Foi e é pelos relatos do meu Pai que vou assimilando e saboreando esta Gloriosa etapa da vida do Nosso Benfica. Diz-me ele que a base já lá estava quando Guttman tomou conta dos destinos da Equipa de futebol, havia sido formada pelo não menos grandioso Otto Glória, o que “O Feiticeiro” fez foi  elevar o Benfica, com a Sua mentalidade muito própria e com os seus métodos revolucionários, ao patamar seguinte… O Olimpo.

Mas do Olimpo fez o Benfica descer ao inferno quando, após se sagrar bicampeão europeu e não vêr as suas pretensões de aumento salarial correspondidas pelo Benfica – que não tinha dinheiro para tal – bate a porta e profere uma frase que até hoje vinga e ficou conhecida como “a maldição de Guttman”: 

"Nem daqui a cem anos uma equipa portuguesa será bicampeã europeia e o Benfica sem mim jamais ganhará uma Taça dos Campeões." 

Eu não acredito em bruxas nem sou supersticiosa mas já lá vão 50 anos.. Já vi o Benfica em 5 finais europeias… Ainda que tente não me lembrar desta “maldição”, é inevitável.. E nem sob as lágrimas do pedido do Rei sobre a campa do “Mestre” (como lhe chamava), em 1990, antes da Final contra o Milan que o Benfica viria a disputar na cidade onde o “Feiticeiro” se encontra sepultado, o feitiço se quebrou.. 

Dou várias vezes por mim a imaginar o que diria Guttman ao ouvir frases como: “Dentro de 3 anos o Benfica será o maior do mundo” (2003) ou “Vamos arrasar pela Europa fora” (2005)… Onde quer que ele esteja.

Deixem-me sonhar e acreditar que não poderia haver melhor sítio para o “feitiço” ser quebrado do que na Luz, em Casa. Na Nossa Casa. Nossa e Dele, onde pegou nas Estrelas e pintou o Céu.

Terminando por onde comecei..
Se Guttman fosse vivo, adaptaria com toda a certeza a definição que deu da Mística Benfiquista aos tempos modernos. Viajando por algumas experiências pessoais de há uns anitos a esta data, alterações climatéricas comparadas com cadeiras pelo ar, apedrejamentos, cargas policiais, e Praças Públicas que se assemelham a zonas de guerra, são como, e perdoem-me a expressão.. “limpar o rabinho a meninos”!

Sacrifício não é…
- estar debaixo de um autêntico diluvio durante quase 3 horas em pleno mês de Dezembro e vêr o Benfica ser eliminado na última grande penalidade que lhe dava acesso aos oitavos de final da Taça de Portugal; 
- sair de casa para ir vêr o Benfica com alerta vermelho comunicado pelo Instituto de Meteorologia – se é vermelho nenhuma desgraça pode acontecer, só se o Benfica perder. O que não foi o caso, o único furacão que passou naquele campo, sim CAMPO, chamou-se Di Maria; 
- estar a destilar debaixo de 35 graus durante 90 ou 120 minutos; 
sacrifício não é fazer 320 kms com 39 de febre para estar presente num Benfica-Barcelona e vir com “50” para fazer outros 320..

Sacrifício é.... 
- é estar numa final da Taça da Liga, sob protesto e amargurada mas não deixar de lá estar e gritar golo e deixar correr uma lágrima.. Afinal, é um troféu. Apesar de tudo, é um troféu. Uma contradição de sentimentos que acaba por ser suplantada, por breves instantes, na altura em que se ergue a Taça e os papelinhos vermelhos e brancos vão cortando o céu;
- é sair com uma derrota debaixo de uma chuveirada de cadeiras e pedras no Minho sob a banda sonora de insultos durante 90 minutos mais os descontos;
- é  saber que graças à polícia de intervenção a camisola que trago orgulhosamente vestida passa incólume a mãos indignas e baixinho, para comigo e  para que os meus ouvidos não ouçam o barulho de fundo, canto fervorosamente “ser Benfiquista, é ter na alma a chama imensa..” ;
- é estar numa jornada em que perdemos o título, em que mais ninguém está, com aqueles que saem de cabeça baixa do relvado…

Podia continuar mas sei que, tal como eu, a maioria dos que me vão lêr, saberão que há sacrifícios que Bela Guttman não sabia, nem imaginava, que viriam a fazer parte do Almanaque da Nossa Mística. E estes que acabei de citar são os que menos custam.. comparados com outros muito mais profundos que afectam a essência do ser-se Benfiquista. Se ele os imaginasse duvido que tivesse proferido a “frase maldita”. Saberia que seríamos fustigados o suficiente para ter coragem de a proferir.

Por isso reforço: se Bela Guttman vivesse nos tempos de hoje, a sua descrição de “Mística” não seria tão melodicamente poética como foi há mais de 40 anos. 
Mas ainda bem que não vive nos tempos de hoje. O Benfica também é poesia mas a dos tempos de hoje não é tão melodiosa como o era no Seu tempo. 
Não há poetas como os de antigamente.

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